[19.07.2006] Havia ainda um prego no sapato, mas seu pé não doía mais. Welton, sapateiro, deixou a família em Goiânia e, com o dinheiro que tinha, embarcou para os Estados Unidos. Tinha na mala, além de objetos de uso pessoal e dinheiro para as despesas que surgiriam, o sonho de ganhar dinheiro para viver melhor. Levava também a certeza de que seria algo extremamente perigoso, o que não lhe preocupava tanto. Precisava chegar lá, mas não conseguiu. Welton morreu, há dois anos, na carroceria de uma caminhonete interceptada por policiais no deserto do Arizona, oeste dos EUA. Tentara entrar ilegalmente naquele país, pela fronteira do México. Os policiais informaram que pelo estado do corpo Welton morrera algum tempo antes, provavelmente por desidratação provocada pelo sol escaldante do deserto.
Essa história infeliz, não é única. Milhares de brasileiros voltaram ao país deportados dos EUA por tentar entrar clandestinamente. E clandestinamente significa atravessar a fronteira com o México, passando por obstáculos só possíveis de imaginar em filmes. Enfrentar desertos, animais, bandidos, polícia, enfim, sobreviver, para trabalhar de entregadores de pizza, pedreiros, manicures, tudo o que fosse possível, recebendo em dólares.
Como os brasileiros, bolivianos chegam à cidade de São Paulo quase que em containeres, trazidos por coreanos, com a promessa de emprego, regularização e são retidos. Acabam, homens, mulheres e crianças, trabalhando até 16 horas por dia em regime semi-escravo. Submetem-se pelo mesmo ideal que levou Welton a morrer.
Há exatamente um ano, em Londres, o brasileiro Jean Charles de Menezes, acelerou o passo em sua fuga e morreu assassinado pela polícia londrina, confundido, segundo alegou-se, com um terrorista, um homem-bomba, talvez pela cor da pele e pela mochila que carregava. Jean tinha visto de turista, que já estava vencido. Talvez por isso, segundo a polícia londrina, tivesse fugido e exatamente por isso foi assinado com um tiro pelas costas.
A trágica semelhança está na causa desses fatos. Sabe-se que a Humanidade, em sua evolução, esteve sempre em movimento. Em grupos, bandos, hordas, ou solitariamente o homem sempre vagou pelo planeta. Na maior parte dos casos a andança sempre foi sinônimo de fuga, dos perseguidos pelos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. A fome, a doença e a guerra – sabe-se a dimensão que tem – e a conseqüência destas, a morte.
De um modo inexorável aumenta o nível de empobrecimento no mundo, abrindo espaço para a exploração desses miseráveis quer pela via da coação que leva a uma situação próxima da escravidão, quer pela via da gradativa expulsão do mercado de trabalho formal.
Embora na América Latina estejam alguns dos maiores produtores de petróleo e energia e de uma considerável parte do alimento que se consome no mundo, a pobreza é grande e dolorosa e o povo miserável, por seu movimento, já sinaliza o descrédito na ação do Estado e parte em busca da solução individual que é tentar fazer a América, seja enfrentando as condições desfavoráveis da clandestinidade, desde as condições de travessia até a corrupção e bandidagem que acontece.
O prego no sapato de Welton e a mochila nas costas de Jean Charles são símbolos da fuga. Não se trata apenas de bolivianos, brasileiros e até malaios entrarem pela fronteira do México com a Guatemala. São os turcos, croatas, sérvios, africanos que migram para países Europeus, onde são repelidos por serem responsáveis pelo aumento de demanda aos estados e, mão-de-obra barata, ameaçando o equilíbrio de oferta e procura de emprego naqueles países. Acabam hostilizados e, no meio da caminhada, todos se deparam com os que vendem favores, exploradores da clandestinidade na grande cadeia de mercadores de seres humanos. Procuram, no entanto a simples sobrevivência a partir de um trabalho digno, de difícil conquista em seus países de origem.
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