[29.11.2006] Há alguns anos atrás havia um quadro num programa humorístico na televisão brasileira em que o personagem encenava um exilado, Sebá, que frequentemente telefonava para os familiares e amigos no Brasil. Depois de ouvir as notícias, nem sempre agradáveis, ele dizia: “Vocês não querem que eu volte!”
Pois é, voltei. Depois de alguns anos estou no Brasil revendo alguns parentes e amigos. As notícias no entanto não são tão boas como a gente gostaria de ouvir.
Fui no sábado à noite no shopping center mais famoso da cidade, estava lotado, hordas de adolescentes, não eram “mauricinhos”, e “patricinhas”, mas meninos e meninas da classe suburbana que andavam em grupos, falando alto e encarando os adultos em tom desafiador. No meu tempo à cerca de dez anos atrás não era assim. Na saída do shopping um corre-corre, e seguranças fechando as portas das lojas. Esperamos alguns minutos e saímos rapidamente para buscar o nosso carro no estacionamento. O motivo da confusão era alguém famoso que chegara na “boite sub 17”, uma outra novidade brasileira. São casas noturnas frequentadas por adolescentes com idade até os 17 anos. A casa abre para eles às cinco da tarde e fecha às 11 da noite. O problema é que depois das onze eles não tem o que fazer. Então eles começam a fazer o que não devem.
O que se percebe é a banalização da criminalidade. Um menino de cerca de 13 anos matou, também em Londrina, um comerciante por apenas cinco reais. O índice de criminalidade cresceu assustadoramente.
A cada treze minutos um brasileiro é assassinado no Brasil. O Brasil é o país onde mais se mata com arma de fogo no mundo.
Conversava com um empresário filho de um dos pioneiros da cidade e ele me disse que tem vontade de vender tudo e ir morar num lugar remoto longe de tudo e de todos.
Na semana passada foi preso em Londrina um dos maiores assaltantes de banco do país, Reinaldo Girotti, comparsa de Marcos Camacho, também conhecido como Marcola, o homem mais procurado pela polícia brasileira. Ele andava calmamente por shopping center quando foi identificado e preso. Morava num luxuoso hotel e estava construindo uma casa no valor de um milhão de reais.
Cerca de 16 pessoas foram acusadas de integrar uma quadrilha que desviou, pelo menos, 30 milhões de reais em arrecadações conseguidas através de duas organizações não governamentais (ongs) Grupo de Apoio a Pessoas com Câncer (GAPC) e a Associação Brasileira de Assistência a Pessoas com Câncer (Abrapec). Estas organizações se utilizavam da boa vontade popular, pois diziam dar apoio a pessoas com câncer. Na verdade era a fachada do negócio fraudulento, infelizmente jamais ajudou a uma pessoa realmente necessitada.
A gente se acostumou com a paisagem norte-americana, jardins, casa sem cercas, ruas limpas, trânsito ordeiro. No Brasil você já acha que existem muros demais, cercas demais, grades nas janelas demais, muros pichados demais. A gente se acostumou com a segurança, não que aqui não haja violência, mas convenhamos é infinitamente menor do que a que existe atualmente no Brasil. Aqui agora a novidade agora são a cercas com sensores eletrônicos e que são colocadas sobre os muros. Estas acionam um alarme ensurdecedor ao menor toque. E o toque pode ser do gato do vizinho ou do galho da árvore que caiu com o vento e a chuva. Você dá um pulo e não sabe o que realmente está acontecendo. No bairro onde meu cunhado mora é uma sinfonia de alarmes que vira e mexe é acionando inesperadamente. Com a criminalidade em alta o Brasil é o país dos alarmes.•
*Estêvão Canfield é pastor da New Canaan United Methodist Church, uma igreja em células, em Elizabeth, New Jersey.É bacharel em Teologia e jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo.• |