[28.02.2007] Lance Amstrong foi um ciclista que havia disputado vários campeonatos de ciclismo, mas que nunca havia ganhado nada. No ano de 1996 foi diagnosticado um câncer no seu organismo. Fez a quimioterapia, passou por um doloroso processo de recuperação e nos anos seguintes foi imbatível nas pistas da França, considerada a copa do mundo do ciclismo mundial. Amstrong venceu os sete campeonatos seguintes, se tornando no maior campeão de todos os tempos.
Quando se bate no fundo do poço, o feito de voltar à superfície, no ponto exato em que se encontrava antes, já é grandioso e digno de aplausos. Mas o que se vê em muitas pessoas é que além de superar ela vão muito além. Os analistas – e a sociedade – querem entender como muitos conseguem reunir forças quando tudo parece perdido, reinventar a própria vida e construir uma realidade mais animadora do que a surgida nos melhores planos anteriores. O processo, a um só tempo curioso e encantador, é capaz de produzir lições para melhorar a vida do restante das pessoas.
O psiquiatra Luiz Alberto Py, em artigo publicado pela revista Isto É, define auto-estima como a capacidade de o ser humano amar a si próprio. É a versão pessoal do amor que todo mundo conhece e dedica ao outro, seja ele o filho, o pai, a mãe ou a mulher.
O que acontece na vida da maioria das pessoas é que com o passar dos anos, a auto-estima é corroída por dois fatores básicos. O primeiro, externo, são as cobranças sociais a que todo mundo está submetido. O segundo, individual, são as características psicológicas que fazem uma pessoa ter maior ou menor capacidade de manter o amor próprio.
Mas para quem chegou ao fundo do poço, o indivíduo não tem mais nada a perder. Ao sofrer um grande revés consegue finalmente livrar-se do peso das cobranças sociais. E, aí, traça um caminho de recuperação com naturalidade e segurança bem maiores do que as mostradas antes de viver o problema.
Não são poucos os casos célebres de superação. O inglês Stephen Hawking começou a sentir os efeitos de uma doença neuronal degenerativa aos 21 anos. Hoje, ela paralisa praticamente seu corpo inteiro. Mas isso não o impediu de ser considerado o maior físico teórico depois de Albert Einstein. E nem de escrever duas obras-primas que traduzem para os mortais comuns parte de seu sofisticado pensamento científico: Uma breve história do tempo e O universo numa casca de noz.
Filho de pai alcoólatra, o alemão Ludwig Van Beethoven encontrou a surdez quando havia composto metade de sua obra. Mesmo assim, compôs e, em algumas ocasiões, ajudou a reger a peça que iria mudar os rumos da música: a Nona Sinfonia. Os sons estavam dentro dele – e ele estava completamente surdo. “Essas pessoas, sejam elas gênios, super kids ou cidadãos comuns, infelizmente não são maioria no mundo”, afirma o psicanalista brasileiro Flávio Gikovate. Segundo ele “a maior parte fica paralisada diante das grandes frustrações.” No entanto, Gikovate identifica quatro ensinamentos básicos retirados de quem dá a volta por cima e passa a viver melhor: “Boa tolerância contra a frustração, falta de disposição para ficar reclamando da vida e disciplina para buscar o objetivo.” E a quarta? É o imponderável. É o que nem a ciência e nem a psicologia ou outra ciência conseguem explicar.•
*Estêvão Canfield é pastor da New Canaan United Methodist Church, uma igreja em células, em Elizabeth, New Jersey.É bacharel em Teologia e jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo.• |