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Léa Campos
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ANTES TARDE DO QUE NUNCA
Por Léa Campos . leacampos2000@bol.com.br

 

[01.08.2007] Na semana passada, mais precisamente na 5ª feira, fui tomada por uma das mais fortes emoções nos últimos tempos, ao ver a seleção feminina de futebol sagrar-se  campeã no Pan enfrentando a poderosa equipe dos EEUU.
Foi realmente emocionante.
Esta medalha de ouro, é o premio da persistência, da garra e sobretudo do amor de cada uma delas pela camisa verde amarela e pelo esporte rei do Brasil.
Me dou o direito, sem falsa modesta, de premiar-me com uma medalha de ouro também.



O futebol feminino sempre foi uma reivindicação minha às autoridades futebolísticas e governamentais do país.
Na década de 60 fui presa pelo DOPS em Belo Horizonte por infringir a lei 3199 da Constituição de 1946, no campo  do Sete de Setembro, por ter formado um time de futebol com moças do Carlos Prates e estar jogando contra uma equipe de juvenis ( masculino) do Cruzeiro.
Era o primeiro time de futebol formado por mulheres.
Nosso time levava por nome Independentes, mas a ditadura militar não nos permitia a independência  de jogar futebol e a polícia tinha que fazer valer a Constituição do país.
Hoje ao ver as meninas lideradas por Marta, Pretinha, Formiga, Andréia, Maicon, Cristiane e outras carregando no peito a medalha de ouro do Pan Americano, vejo que valeu a pena todas as vezes que perdi minha liberdade pelo sonho de ver as mulheres
driblando e fazendo gols pelos campos do   Brasil.
Não importa os caminhos trilhados, as confusões nas quais me meti ou as humilhações que me impuseram, o ouro está aí para provar que qualquer luta é válida quando o objetivo é nobre.
A emoção me embarga mas não me tira o raciocino, tão pouco me embriaga, sou consciente do que fiz e do valor que tenho dentro da rama feminina no que a futebol se refere, quer seja jogadondo ou apitando .
Sinto orgulho ao ver meu trabalho transformado em ouro dentro do mais importante estádio brasileiro.
Minha vaidade é ímpar e o mérito de minha luta está hoje em todos os campos de futebol não apenas do Brasil como também pelo mundo, já que o primeiro time de futebol feminino a nível mundial saiu de Belo Horizonte para o mundo ainda na década de 60 mesmo tendo que enfrentar a ditadura militar e seus algozes.
Não estive presente fisicamente no Maracanã na tarde de 26 de Julho, mas meu espírito certamente estava com cada uma delas.
Minha vitória não é  ser lembrada por minha luta, como  o fez  Estado de Minas em 1984 e novamente agora, é saber que meu sonho se fez realidade e eu vivi para
ver e contar.                     
As meninas da seleção brasileira de futebol merecem todas as honras havidas e por haver, mas, mais que isso merecem o respeito daqueles que um dia fizeram delas e de outras que buscam no campo de futebol a realização de um sonho e muitas vezes o sustento para casa, os mais grosseiros comentários alguns impublicáveis.
O que o futebol masculino ainda não conseguiu apesar de toda estrutura montada, ( a medalha de ouro
pan-americana) as meninas conseguiram com sangue, suor e lágrima impondo uma  vontade incontida de entrar em campo e lutar os 90 minutos por  apenas um objetivo: o título .
Quem sabe este ano, na China teremos a oportunidade de ver as meninas sob a batuta de Marta levantando a Copa Mundial.
Setembro trará o compromisso de unirmos nossos corações em um uníssono grito de apoio a estas bravas meninas que certamente estarão em sintonia com nosso desejo e receberão nossas vibras.
A de agora foi a vitória sobre o machismo incontrolável dos que queriam ser donos do futebol, e que pretendiam colocar sexo neste esporte que apaixona a todos sem distinção e sem preconceitos.•

Informar é um privilégio, informar corretamente uma obrigação.•

 
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