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19.09.2007 imprimir Imprimir
 

Brasil lança satélite nesta madrugada e mira dominar sensoriamento

Ao mesmo tempo em que prepara para esta noite o lançamento do CBERS-2B, terceiro satélite do programa sino-brasileiro de observação da Terra, o Brasil já planeja uma espécie de ofensiva geopolítica espacial: quer montar seis estações ao redor do mundo para que países da África, do Sudeste Asiático e da América Latina possam receber, de graça, imagens geradas pela nave.

O plano, que já recebeu a chancela do Itamaraty, inclui quatro estações de recepção de dados de satélite para a África, uma na Indonésia ou na Austrália e uma em Roraima, segundo o diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Gilberto Câmara. Hoje só existem quatro estações aptas a receber e processar imagens do CBERS: três na China e uma no Brasil, em Cuiabá.

O custo total da manutenção das novas estações é calculado em R$ 10 milhões por ano --metade do que o país gastou com a viagem do astronauta Marcos Cesar Pontes para a Estação Espacial Internacional, em 2006. Ainda não se sabe de onde sairá o dinheiro.

O retorno esperado é que a tecnologia nacional de sensoriamento remoto se dissemine por esses países, e que empresas brasileiras do setor possam ganhar "maior inserção", nas palavras do coordenador do Programa de Aplicações do CBERS, José Carlos Epiphanio. Também está na mira do Inpe a montagem de um centro internacional de monitoramento de florestas tropicais. Ele utilizaria essas estações como nós de uma rede de observação, e "exportaria" metodologias brasileiras como o Prodes e o Deter, usadas para cálculo e acompanhamento do desmatamento da Amazônia, a outros países com florestas. Aqui, o interesse é político, não econômico.

Da China, na hora H

O CBERS-2B deve decolar à 0h26 desta quarta-feira (hora de Brasília) da base de Taiyuan, ao sul de Pequim, a bordo de um foguete Longa Marcha 4B, de três estágios. O satélite é uma cópia melhorada de seu antecessor, o CBERS-2, e dará ao programa brasileiro de observação da Terra um respiro mais do que necessário.

Isso porque os dois outros satélites da série CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres) já estão um morto e o outro, "caolho": o CBERS-1 parou de funcionar em 2003 e o CBERS-2 perdeu suas duas câmeras auxiliares numa pane de bateria em 2005. Esse tipo de espaçonave geralmente tem uma "validade" de dois anos.

Novo satélite brasileiro entra em órbita Clique em PLAY para assistir

Como o Landsat-5, satélite norte-americano cujas imagens o Inpe também usa, pode deixar de funcionar a qualquer momento, o monitoramento do desmatamento na Amazônia está numa situação delicada. "Há uma grande expectativa pela continuidade dos dados do CBERS", disse Epiphanio.

Por outro lado, continuou o pesquisador, "se o CBERS-2B operar até o lançamento do CBERS-3, em 2009, e se o CBERS-2 permanecer vivo por mais um tempo, estaremos numa situação privilegiada".

O CBERS é feito para operar numa resolução considerada alta: cada um de seus pixels (menores pontos na imagem) tem 20 metros por 20 metros. Isso faz com que suas imagens e as do Landsat sejam ideais para o Prodes, programa que calcula a taxa anual de desmatamento.

A desvantagem desse olhar mais apurado é que o tempo que o satélite demora para sobrevoar uma mesma área duas vezes é longo: 26 dias. Isso impede o acompanhamento imediato do desmatamento, algo que precisa ser feito por um satélite mais "míope", o americano Modis (que, aliás, só deve durar até 2009).

Com dois satélites em operação, aumenta o tempo de aquisição de imagens e diminui o intervalo entre os sobrevôos.

Estratégia

O CBERS-2B também tem uma vantagem tecnológica em relação aos seus antecessores que permitirá que mais países utilizem suas imagens: ele leva a bordo um gravador mais potente que os dos outros. "Ele pode imagear outras partes do globo [além da China e do Brasil], como a Europa, e descarregar depois essas imagens nas estações de recepção chinesas ou na brasileira.

Como a política sino-brasileira é fornecer as imagens de graça --as de outros satélites do gênero são pagas--, mesmo quem não tem estações poderá receber dados do CBERS.

Segundo Epiphanio, já há interesse "firme" da Espanha, da Itália e da África do Sul de modificar estações de recepção de dados de satélite para poder "baixar" diretamente as imagens do CBERS. A espanhola cobriria o noroeste da África, e a italiana, o nordeste. A estação planejada em Roraima forneceria dados para a América Central e os países amazônicos.

Mas o CBERS-2B tem ainda outro "cliente" potencial: os EUA, cujo programa de observação da Terra anda em crise. "Eles estão com a corda no pescoço nessa questão do Landsat", diz Epiphanio.

 
 
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