MST invade e promove manifestações em dez estados
São Paulo - O Movimento dos Sem-Terra (MST) deu início na segunda-feira a uma nova jornada nacional de lutas pela reforma agrária, com manifestações em dez Estados. Os militantes mobilizados em acampamentos e assentamentos da organização, ocuparam as sedes regionais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) de Belo Horizonte, São Paulo, São Luís Fortaleza e Rio de Janeiro.
Também foram realizados atos de protesto diante de órgãos públicos ligados ao Ministério da Fazenda. No Rio, os sem-terra montaram um acampamento diante da sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para protestar contra os empréstimos que a instituição concede a empreendimentos ligados ao agronegócio.
A jornada nacional - com duração prevista até o fim da semana - é a terceira que o MST realiza neste ano. A primeira ocorreu em abril, quando ocupou 81 fazendas em 21 Estados, além de promover a paralisação de 25 praças de pedágio em rodovias. A segunda, em julho, alcançou 10 Estados.
FÔLEGO - Neste ano, o MST também realizou um congresso nacional, com 18 mil pessoas, em Brasília, no mês de julho; associou-se à Central Única dos Trabalhadores (CUT) para protestos contra projetos de mudança na legislação trabalhista, em maio; ajudou a Via Campesina a ocupar sedes de empresas multinacionais da área do agronegócio, em março, e engrossou manifestações estudantis pela qualidade do ensino, em agosto. No total a organização teve fôlego para sete grandes manifestações em menos de nove meses.
"A reforma agrária parou no País", disse na segunda-feira José Batista de Oliveira, membro da direção nacional do MST e porta-voz da organização, ao explicar suas ações. "Existem 150 mil famílias em nossos acampamentos. Muitas delas estão debaixo da lona há mais de sete anos. A prioridade deste governo não é o assentamento de famílias pobres, mas o incentivo aos empresários do agronegócio."
O porta-voz lembrou ainda que em 2006 o governo destinou R$ 50 bilhões ao agronegócio, enquanto o setor da pequena propriedade recebeu R$ 10 bilhões. "Só o valor da dívida renegociada pelos grandes - e que nunca vai ser paga - é maior do que o valor destinado aos pequenos produtores", disse.
META AMEAÇADA - Em Brasília, a direção do Incra não quis se manifestar sobre as ações do MST. Depois de enfrentar uma greve de quase dois meses em seu quadro de funcionários, dificilmente a autarquia cumprirá a meta oficial de assentar 100 mil famílias até o fim do ano. "É provável até que não consiga gastar o pouco que o Orçamento da União destinou neste ano para a reforma agrária", afirmou Oliveira.
A ocupação das sedes regionais do Incra ocorreu de maneira tranqüila. Em São Paulo, como já ocorreu em outras ocasiões, a direção do órgão reservou a garagem do edifício para os sem-terra montarem acampamento.
Em Belo Horizonte, cerca de 200 sem-terra paralisaram as atividades da instituição. Uma reunião dos líderes com o superintendente regional, Marcos Helênio, terminou em impasse, porque os sem-terra não concordaram em definir um prazo para saída. Segundo o coordenador do MST na região, Vanderlei Martini a ordem é manter a ocupação até que o Incra apresente uma proposta concreta para as 4.200 famílias acampadas no Estado.
No Rio, sob uma chuva fina, no início da tarde, cerca de 400 integrantes do MST montaram acampamento diante do portão principal da sede do BNDES, no centro da cidade. De acordo com o porta-voz do grupo, Léo Lima, eles só pretendem sair de lá depois que o presidente do banco, Luciano Coutinho, receber uma comissão de representantes dos sem-terra.
"Queremos garantias de que o banco lance linhas de crédito para a agroindústria nos assentamentos e junto aos agricultores familiares", disse Lima. No início da noite, alguns acampados cantavam sambas, enquanto outros preparavam a janta, em grandes panelas, sob a marquise do imponente edifício. |