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27.10.2007 imprimir Imprimir
 

Kirchner alternou boas relações e confrontos com o Brasil

Buenos Aires - Os quase quatro anos e meio de governo do presidente Néstor Kirchner alternaram momentos de lua-de-mel com o Brasil e de confronto com seu principal sócio no Mercosul. Kirchner, fiel a seu estilo sem papas na língua, não hesitou, em diversas ocasiões, em desferir fortes golpes contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o empresariado brasileiro.

"Há um lugar na OMC, o Brasil o quer. Há uma vaga na ONU, o Brasil a quer. Há uma cadeira na FAO, o Brasil a quer. Se até quiseram eleger o papa!", desabafou Kirchner em 2005, em plena crise argentino-brasileira. "A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) é dura e impiedosa", atacou, na mesma época. Mas, desde o final daquele ano, as relações entre os dois lados da fronteira desenvolveram-se sem grandes problemas. Kirchner voltou a tratar bem o Brasil, embora eventualmente dispare críticas contra a Petrobrás e seus investimentos no país.

Reato diz que os confrontos de Kirchner com Lula, no passado, foram provocados pela crise econômica que assolava a Argentina no início de seu mandato. "Lula e Kirchner construíram um modus vivendi satisfatório para ambas as partes", acredita o autor. Segundo ele, a Argentina de Cristina aceitará a liderança do Brasil. "Mas nunca a hegemonia brasileira".

Desde o início do governo Kirchner, os números provam que a interação entre o Brasil e a Argentina gera frutos. O intercâmbio comercial entre os dois países saltou de US$ 9,23 bilhões, em 2003, para cerca de US$ 20 bilhões, este ano. Um recorde histórico.

Cristina Kirchner, em seu comício de lançamento de candidatura, em junho, indicou que o modelo econômico brasileiro era um exemplo a ser seguido e até citou explicitamente a Embraer como empresa a ser invejada pelos argentinos.

Para o ex-Secretário de Comércio Dante Sica, não haverá mudanças no trato entre os dois países. "Se Cristina for eleita, manterá a linha atual, com algumas nuances", disse ele à AE. "Considero que ambos os países deverão definir uma política de defesa comercial comum contra a China". Segundo Sica, os pontos de conflito foram delimitados e não afetam mais a relação bilateral

O ex-secretário de Comércio Raúl Ochoa disse à AE que se Chávez insistir em alianças estratégicas "duvidosas", Cristina "teria que marcar território", ou seja, melhorar relações com países desenvolvidos. "Por isso, é essencial uma boa relação com Lula", diz. A opinião é reforçada por Reato: "o Brasil continuará sendo importante para a Argentina. Os Kirchner sabem disso, pois são muito pragmáticos".

Em 2002, quando a Argentina era embalada pelas turbulências sociais e financeiras, os investimentos europeus e americanos sumiram do país. Mas as empresas brasileiras, ao lado das mexicanas, decidiram que valia a pena apostar na recuperação econômica argentina. Além disso, o cenário era conveniente, já que a desvalorização do peso transformara as empresas argentinas em ofertas atraentes. Muitas das grandes empresas remanescentes foram compradas.

Os frigoríficos Friboi e Marfrig estão, ironizam os economistas portenhos, "fazendo shopping" na Argentina. Além de comprar companhias existentes, as empresas brasileiras estão construindo fábricas no país. Foi o caso da Paquetá, que ergueu uma fábrica de calçados na cidade de Chivilcoy.

Os economistas ressaltam que a estratégia brasileira é a de investir aqui para exportar para o próprio Brasil. Nos últimos cinco anos, as empresas brasileiras investiram na Argentina US$ 6,812 bilhões. Desse total, 52% foram destinados ao setor industrial, quase 40% a gás e petróleo, 8% à construção e 0,3% a serviços. Os investimentos diretos provenientes do Brasil, que em 1997 representavam 0,2% do total de recursos estrangeiros no país, chegaram a 20% atualmente.

 
 
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