Para corregedoria, Jean Charles não se comportou de forma suspeita
Londres - O diretor da corregedoria da Polícia Metropolitana de Londres, Nick Hardwick, considera que o brasileiro Jean Charles de Menezes, morto por policiais britânicos em julho de 2005 depois de ter sido confundido com um "terrorista" no metrô de Londres, não fez nada de anormal ao ponto de levantar suspeitas.
A opinião do corregedor faz parte de um relatório sobre a morte de Jean Charles divulgado na quinta-feira em Londres. O documento contém 16 recomendações de mudança nos procedimentos da polícia para evitar que no futuro ocorra algo parecido com o incidente de pouco mais de dois anos atrás.
Na semana passada, a Polícia Metropolitana de Londres foi considerada culpada de violar normas de segurança e saúde públicas, colocando em risco a vida de pessoas inocentes durante a operação que resultou na morte do brasileiro.
Durante o julgamento, um advogado da corporação sugeriu que Jean Charles se comportava de maneira suspeita, mas Hardwick opinou que não se deve tentar culpar o brasileiro pelo episódio no qual perdeu a vida.
"Ele não fez nada fora do comum", avaliou Hardwick. "Ele acelerou o passo nos últimos degraus da escada quando ouviu o trem na plataforma. E assim como os outros passageiros ele se levantou quando os policiais invadiram o trem", prosseguiu o corregedor.
"Essas ações podem ter sido mal interpretadas pelos oficiais de polícia na busca por um homem-bomba, mas foram atos totalmente inocentes."
A Polícia Metropolitana de Londres alegou ter atuado em legítima defesa em um momento de profunda insegurança e que foi difícil identificar o brasileiro porque ele teria fisionomia parecida com a do extremista Hussain Osman, procurado na ocasião.
"Estou satisfeito com o fato de a morte de Jean Charles de Menezes ter servido de catalisador para melhoras significativas na forma como a polícia lida com a ameaça do terrorismo suicida" avaliou.
"Esses avanços tornam menos provável a existência de futuras vítimas inocentes em operações da polícia e muito mais provável que a polícia seja capaz de responder com eficácia a uma verdadeira ameaça terrorista. Londres e os londrinos conseqüentemente estarão mais seguros", prosseguiu.
"Apenas não era necessária a morte de um homem inocente para que isso acontecesse", concluiu.
Jean Charles de Menezes, de 27 anos, foi morto pela polícia britânica com sete tiros na cabeça no interior do metrô de Londres em 22 de julho de 2005.
Duas semanas antes, quatro homens-bomba promoveram atentados suicidas que provocaram a morte de mais 52 pessoas em três estações de metrô e um ônibus na capital britânica. Um dia antes da morte de Jean Charles houve uma tentativa fracassada de novos atentados contra Londres.
A polícia, que mais tarde pediu desculpas pelo erro, alegou ter confundido Jean Charles com um dos suspeitos dos atentados fracassados do dia anterior à morte do brasileiro.
No documento divulgado na quinta-feira, Hardwick recomenda a abertura de um novo inquérito para apurar o incidente e acusa o comissário da Polícia Metropolitana de Londres, Ian Blair, de ter tentado obstruir as investigações.
O relatório foi concluído cerca de seis meses depois da morte de Jean Charles. O documento não foi divulgado antes porque estava sendo usado no julgamento encerrado na semana passada. |
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