Turbulências na Bolívia
O presidente Lula desembarcou ontem numa Bolívia tumultuada por graves riscos internos e por turbulência em suas relações internacionais. A visita do mandatário brasileiro, programada há semanas e adiada por alguns dias por iniciativa brasileira, coincidiu com a oficialização, no sábado, da declaração de autonomia do departamento mais rico do país, Santa Cruz de la Sierra. Ou seja, a crise institucional deflagrada pela divisão do país em torno da nova Constituição chegou a um clímax que se prolongará agora até o referendo que confirmará ou não o estatuto autônomo. Santa Cruz reconhece ao governo nacional competência nas relações exteriores, na defesa e na moeda, mas criará sua própria polícia, seu Judiciário e o controle sobre dois terços dos tributos arrecadados no departamento.
esmo com essa crise interna que absorve praticamente toda a atenção do governo de Evo Morales, o país tem importantes questões a tratar com o Brasil, principal comprador de seu gás. Nosso país foi amplamente tolerante com atitudes de força que o governo Morales adotou, em especial no episódio da ocupação militar das instalações da Petrobras naquele país. A questão energética, importante para Brasília e La Paz, tem sido o foco dos atritos entre os dois países, mas é também a questão que os aproxima. O gás da Bolívia é importante para o Brasil, da mesma maneira que um Brasil comprador e investidor é indispensável para a Bolívia. Tudo concorre, pois, para que os dois países soberanos encontrem, em acordos que respeitem a história e os direitos recíprocos, um espaço de fecundo relacionamento comercial.
O presidente Lula não desembarcou em La Paz na condição de amigo de Evo Morales. Desembarcou como presidente do Brasil, interessado em que aquele país defina em paz suas questões internas e que se relacione responsavelmente com os vizinhos. |