Eleições nos EUA: “nanicos” da política norte-americana querem ser ouvidos
Ao contrário do Brasil, os EUA são conhecidos pelo seu sistema bipartidário. Isso significa que os dois principais partidos norte-americanos, o republicano e o democrata, formam a base da política do país e contam com o apoio de cerca de 60% da população. Desde 1860, seus candidatos dominam a Câmara dos Representantes e do Senado e todos os presidentes desde 1952 pertenciam a um deles. Porém, existem 37 partidos menores nos EUA, conhecidos no país como terceiros partidos, que tentam despontar no cenário político norte-americano.
Tem de tudo. Partido Verde, Socialista, Comunista e até o Partido da Legalização da Maconha. O problema é que os candidatos destas legendas não conseguem muitas vezes chegar até o final do processo eleitoral. Isso acontece porque o sistema político dos EUA elimina as chances deles ainda nas primárias.
Nelas, os eleitores votam em delegados definidos de acordo com a população de cada Estado. Estes representantes escolhem o candidato à presidência de cada partido na Convenção Nacional. Muitas vezes, os terceiros partidos não têm delegados para representá-los e acabam sendo eliminados.
Para o cientista político da Universidade de Brasília João Paulo Peixoto, os terceiros partidos não têm expressão por causa desse sistema eleitoral que beneficia o bipartidarismo. O professor acredita também que não há necessidades de mudança. “Não é necessário porque os EUA são a maior democracia do mundo”, diz.
Em entrevista exclusiva ao Último Segundo, o pré-candidato à presidência dos EUA pelo Partido Verde, Jared Ball, argumenta que os terceiros partidos enfrentam obstáculos no país. “Eles não recebem atenção da grande mídia, que não passa de uma extensão das corporações de elite que compõem os partidos Democrata e Republicano e assim não conseguem passar sua mensagem ao resto da população”, diz Ball, que é jornalista e professor de comunicação.
De acordo com o candidato, o próprio sistema político dos EUA impede que os terceiros partidos levantem fundos e consigam abrir espaço para divulgarem suas idéias. Dessa maneira, ainda segundo o candidato verde, assuntos que realmente interessam à sociedade, como “distribuição de renda e brutalidade policial”, são ignorados pela união entre a mídia e os grandes partidos.
“As pessoas que integram os terceiros partidos enfrentam uma batalha diária para se forçarem dentro de um sistema e estabelecer tópicos que precisam ser ouvidos” diz o candidato, que acredita desempenhar um papel essencial na luta contra o sistema bipartidário.
Ball afirma que integrantes dos partidos Republicano e Democrata muitas vezes não conseguem nem debater um assunto considerado tabu internamente, onde novas idéias acabam sendo vistas como progressistas demais. “As discrepâncias nos EUA são ocultadas, as pessoas sofrem e ninguém quer entrar nessa discussão” diz.
O professor Peixoto contradiz esse argumento. O especialista acredita que políticos como Ball consigam trazer idéias novas para os dois partidos majoritários. “Isso acontece com os grupos internos que os partidos carregam e algumas vezes incorporam a mesma bandeira desses terceiros”, analisa.
Na história política americana, é possível perceber vários exemplos disto. No final da década de 20, o Partido Socialista apoiou a criação de um fundo para compensar os desempregados. Em 1935, os democratas estabeleceram o seguro-desemprego e o Ato de Seguridade Social. O Partido da Proibição apoiava a suspensão da venda de bebidas alcoólicas, além de promover o direito das mulheres votarem. As propostas foram apoiadas por ambos os partidos, que geraram, em 1919, a criação da 18ª emenda, a famosa Lei Seca, e, em 1920, as mulheres receberam o direito de votar a partir da 19ª emenda.
Segundo Ball, o papel dos terceiros partidos, nesse cenário político, não é converter republicanos ou democratas, mas mostrar para os eleitores que existem mais opções, que eles não precisam votar no menor de dois males. “Eu vejo mudanças na sociedade norte-americana, mas tenho medo de que elas não sejam suficientes” para mudar, pelo menos por enquanto, o sistema bipartidário dos EUA.
“Muitas idéias (dos terceiros partidos) são consideradas radicais, mas na verdade elas só refletem o que a sociedade precisa. Nosso papel é torná-las mais aceitáveis”, conclui Ball.
As eleições de 2008 ainda não viverão as mudanças pretendidas por Ball, e pelo que tudo indica, a corrida presidencial será mais uma vez entre o candidato republicano e o democrata. |