Americanos apostam no pôquer como ferramenta educacional
Até bem pouco tempo, o pôquer era apenas um jogo. Há alguns anos, apareceu como um modismo. Em seguida, principalmente por causa da televisão, se transformou em um fenômeno nacional nos EUA, se não numa verdadeira indústria. Será surpresa que alguns agora querem orientá-lo para uma causa mais elevada? Um professor da escola de direito de Harvard e um grupo de alunos formaram uma organização no outono passado – a Global Poker Strategic Thinking – dedicada a demonstrar que o pôquer traz benefícios à educação.
Eles argumentam que o jogo, que é baseado em probabilidades e requer avaliação de risco, análise situacional e capacidade para ler as reações das pessoas, pode ser efetivamente utilizado como instrumento de educação tanto para aulas de matemática do ensino médio, como para aulas de administração ou direito. “Vejo enormes vantagens em atingir as crianças desde a 6ª série, quando elas começam a abandonar a matemática”, afirmou Charles R. Nesson, professor de direito de Harvard que iniciou a sociedade com um grupo de alunos.
“Estou pensando na garotada que curte videogame, mas em vez de ‘Halo-3’ e ‘World of Warcraft’, nós os levamos a um ambiente de jogo que tem profundidade intelectual e alimenta a curiosidade em vez de eliminá-la”, diz Nesson.
A sociedade tem trabalhado para implementar filias em campi em todo o país. Neste semestre, patrocinou seminários na Harvard com acadêmicos e autores para evangelizar as pessoas sobre as maravilhas do pôquer. Na primavera, planeja fazer um workshop sobre o uso do pôquer para ensinar matemática para crianças, que será ministrado na Smith Leadership Academy, em Boston, uma escola pública para crianças da 6ª à 8ª série consideradas em risco de cometer delinqüência juvenil.
Polêmica
“Nós vemos grande potencial para alcançar nossos alunos de forma inovadora”, afirma Karmala Sherwood, diretor da escola. Outros vêem grande potencial para a criação de vício em apostas. Chad Hills, analista de jogos da Focus on the Family, grupo cristão conservador, descreve como “idiota” qualquer política que encoraje mais crianças em idade escolar a jogar.
“Crianças são extremamente vulneráveis ao vício em jogo”, diz Hills, que comparou o pôquer a uma “droga que funciona como porta de entrada” para coisas mais pesadas, como dados ou máquinas caça-níqueis.
Nesson, que também ajudou a fundar a escola de direito da Berkman Center for Internet and Society, disse que mesmo antes da criação da sociedade, ele consultou Howard Shaffer, diretor da divisão de vícios da escola de medicina de Harvard para entender melhor os aspectos negativos do jogo. “Eu não pretendo ignorar esses problemas".
O professor está mais focado em utilizar o pôquer para produzir advogados mais eficazes e negociadores mais habilidosos do que preocupado com os efeitos negativos em potencial. “Digo a todos os meus alunos que se você quer fazer algo útil com seu tempo livre, tem coisas muito piores do que jogar pôquer”, diz Nesson, que já adotou muitas causas em seus 40 anos de Harvard, incluindo a adoção de atitudes mais brandas quanto ao consumo de maconha, que ele admite abertamente fumar.
Andrew M. Woods, 24, aluno do terceiro ano de direito e diretor executivo do grupo, acredita mais nos benefícios do pôquer do que o professor. “Vejo o pôquer como uma ferramenta para o desenvolvimento de um tipo de habilidade cognitiva que muita gente não parece estar desenvolvendo sozinha, seja porque não é ensinada eficientemente na escola ou porque não a aprendem com seus pais”, afirma.
Muitos dos colegas de Harvard foram jogadores de pôquer, diz Woods, “e acabei me perguntando qual teria sido o papel do pôquer no fato de todos nós termos entrado lá”. O professor Nesson diz que foi compelido a formar o grupo na primavera passada, quando os administradores de Harvard disseram que leis locais proibiam a escola de direito de fazer um torneio de pôquer para caridade para um programa de advocacia “pro bono”. “Foi isso que fez com que eu me mobilizasse para demonstrar aos manda-chuvas que o pôquer é algo positivo”.
Nesson convidou vários alunos de direito para jantar em sua casa e a sociedade nasceu. “Concluímos que estaríamos prestando um desserviço à próxima geração de alunos se não ajudássemos a promover a idéia do pôquer como ferramenta educacional”, explica Woods. Ele afirma que a sociedade tem sete ramos em faculdades em todo o país, incluindo a UCLA e a Stanford Law School, e trabalha para implementar mais dez, incluindo a George Washington, USC e a Tufts. Ele acrescenta ainda que o grupo esperava estabelecer pelo menos duas dúzias de outros subgrupos até junho.
'Mente elevada'
O único pré-requisito é que os organizadores adotem o que Woods chamou de “elemento de mente elevada” em sua missão. O que não significa que eles tenham que funcionar como substitutos para clubes de pôquer, o que o grupo de Harvard faz, acolhendo os que jogam por hobby e desejam aperfeiçoar suas habilidades no jogo. Eles podem praticar ali, contanto que não apostem dinheiro nas jogadas.
Arnold I. Barnett, que ensina modelagem matemática na Sloan Management School, do MIT, esteve em um simpósio da sociedade em novembro. Ele não é muito de jogar pôquer, mas saiu dali intrigado. “Não digo que o pôquer deva substituir a álgebra”, afirma. “Mas há problemas a solucionar no pôquer e se é para os alunos verem como a matemática pode ajudá-los em situações da vida real, parece muito mais inteligente do que tentar fazer com que determinem o volume de algum objeto com formato esquisito.” Ele acrescenta ainda que pode entender o valor educacional no nível de graduação, porque o jogo envolve não apenas descobrir sua própria mão, mas também deduzir qual é a mão dos adversários – habilidades, disse ele, aplicáveis no direito, negócios e no ramo imobiliário.
Nesson, justamente com Woods, falou sobre o grupo de pôquer recentemente aos funcionários do Google, um evento que foi registrado pelo YouTube. Treinado após décadas de palestras em salas de aula, ele é um orador persuasivo. Mas ele também falou de forma rude, para dar munição a seus adversários. “Sou um filho da década de 60 que fumou maconha demais – e nunca mais parou”, disse ele.
Para alguns, encorajar o jogo de pôquer não é uma causa que vale a pena abraçar ou é apenas um exemplo de uma política criada por intelectuais idealista que deu errado.
Aproveitando a presença do time de futebol de Harvard em New Haven, Connecticut, para jogar contra a equipe de Yale no mês passado, a Harvard Law Society desafiou- e venceu- os alunos de direito de Yale num torneio de pôquer.
Mas o time de Yale não tem qualquer ligação com o clube de Nesson, declarou Jeremiah Torres, que ajudou a reunir a equipe de Yale. Ele descreveu o grupo como “um bando de estudantes de direito que gosta de jogar pôquer de vez em quando”.
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