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26.12.2007 imprimir Imprimir
 

Nos EUA, espírito natalino chega até aos cemitérios

Em todo o país, esta é a temporada na qual os cemitérios abrigam a segunda árvore de Natal de muitas famílias, em um encontro entre a devoção e o espírito brega das festas, caracterizada por decorações natalinas de jardim.

Uma espécie de ritual populista de Natal está começando a florescer longe dos jardins e quintais, e o resultado é a transformação das sepulturas de entes queridos. Como as paredes memoriais e os santuários espontâneos que surgiram na Union Square, de Manhattan, depois do 11 de setembro, há decorações em dezenas de cemitérios que combinam o pessoal e o público com, uma exuberância que muitas vezes representa um desafio para os dirigentes das instituições, que se vêem obrigados a promulgar regulamentos sobre decoração e ocasionalmente a remover decorações de túmulos que desrespeitem essas orientações.

Esta semana, membros da família Bailey se reuniram, como fazem todo ano, no cemitério e mortuário Holy Cross, em Culver City, conhecido como o lugar de repouso final de Bing Crosby, Bela Lugosi, Rita Hayworth e outros luminares de Hollywood.

Portando enfeites, ramos de árvores, goiabas e laranjas, e carregando copinhos de tequila, garrafas térmicas de café e cigarros, eles instalaram decorações natalinas nas sepulturas dos membros da família, entre os quais Clarence Joseph Bailey, um adepto da tequila que morreu dois anos atrás, de diabetes, aos 34 anos.

Com pequenas cercas portáteis e guirlandas que brilhavam ao sol, eles produziram, no silêncio do cemitério, uma extensão do Natal tal como celebrado em suas casas. "As compras, os jantares, as festas - você escapa de tudo disso", disse Trina Bailey, 37, a irmã de Clarence. "É reconfortante. Propicia uma sensação de calma. Você consegue esquecer o mundo dos vivos".

Nos três cemitérios dirigidos pela arquidiocese católica de San Francisco, as decorações natalinas estão agora oficialmente restritas a flores, colocadas em um máximo de duas urnas ou vasos de não mais de 30 cm de altura; a cada semana, a administração do cemitério remove as decorações que violam o regulamento.

"As decorações podem servir como obstáculo à manutenção, e algumas delas podem fazer com que visitantes tropecem e se machuquem, gerando questões de responsabilidade judicial para o cemitério", disse Kathy Atkinson, diretora da arquidiocese de San Francisco. "As pessoas compreendem as restrições, racionalmente", acrescentou. "Mas seus corações ditam que ajam de outra maneira mesmo assim".

Ainda que a tradição de colocar decorações de Natal nos túmulos da família seja antiga, e mais comumemente associada nos Estados Unidos ao Dia de los Muertos, a tradição dos católicos mexicanos e latino-americanos quanto ao Dia dos Mortos, ela vem ganhando cada vez mais força na temporada natalina.

Do Cemitério Nacional da Boêmia, em Chicago, que abriga os túmulos de muitos descendentes de tchecos, ao cemitério de San Fernando, passando pelos cemitérios asiáticos do condado de Orange, as decorações natalinas se tornaram tão elaboradas que estão sendo estudadas por folcloristas. "O túmulo se tornou uma extensão da sala de estar", disse Helen Sclair, historiadora de cemitérios em Chicago. "Se as pessoas decidem decorar, decoram mesmo. Não há limites para isso".

Em Culver City, de 14 de dezembro a 9 de janeiro, o período oficial de decorações natalinas, a paisagem em geral sóbria do Holy Cross, um dos 11 cemitérios operados pela arquidiocese católica de Los Angeles, Ventura e Santa Barbara, se torna um reluzente tributo à criatividade e às perdas das famílias. Muitas das decorações representam um ato coletivo de devoção nascido da imprevisibilidade da vida em si - acidentes de automóvel, desastres domésticos, doenças, homicídios, a morte súbita e incompreensível de uma criança.

Milly Rodriguez passou quatro dias decorando o túmulo de sua filha Vanessa, que morreu de fibrose cística aos 10 anos, em outubro, depois de um ano de muitas internações no Hospital Infantil de Los Angeles.

Rodriguez preparou um tributo de festas formado por iluminação natalina Disney, princesas e uma boneca vestida como Cinderela na posição de estrela. Em suas visitas, ela usa o acendedor de cigarros em seu carro como fonte de energia para acender as lâmpadas da árvore. O objetivo do tributo é provar à sua filha que "a vida continua a existir", ela afirma.

Ainda que a arquidiocese oficialmente proíba o uso de iluminação natalina nas sepulturas - bem como árvores de Natal com mais de 60 cm de altura, equipamento operado com baterias ou acionado por eletricidade, estacas fincadas no chão para escorar as decorações, ornamentos frágeis, homens de neve e bonecos de Papai Noel -, a inspiração das famílias parece vir crescendo, e os dirigentes do cemitério encontram dificuldade para impor o regulamento. Da mesma maneira que vizinhos ocasionalmente brigam quanto à definição dos limites exatos de seus terrenos, de vez em quando ocorre tensão entre as famílias, nos cemitérios, quando decorações exageradas invadem a área de sepulturas vizinhas.

"Nós queremos que todos possam honrar seus entes queridos de maneira que demonstre seu respeito pelo falecido, mas também pelas pessoas que o cercam", disse Tod Tamberg, porta-voz da arquidiocese.

 
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