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   Colunas . Editorial por André Ladeira e Marina Herrmann

29.12.2007 imprimir Imprimir
 

Mais um set de curiosidades

A influência de uma língua na outra é comum, temos em nossa língua a influência principalmente do inglês, do francês e do espanhol. Mas, para um brasileiro que vive nos Estados Unidos, isso ocorre o tempo todo. E nas duas vias. Traduzimos instintivamente e literalmente algumas expressões idiomáticas que não funcionam da mesma forma na outra língua. Convivendo com brasileiros nos EUA não raramente se ouve alguém dizendo: “estou com dificuldade de ‘salvar’ dinheiro”, “você pode ‘queimar’ esse CD pra mim?”, “preciso ‘aplicar’ pra um novo emprego” ou ainda expressões que não são traduções, mas que soam parecidas como que um cara “tem um ‘acento’ muito forte”, se referindo ao seu sotaque.

Mas o português tem a sua influência não só em expressões, mas também na estrutura da frase, algumas soando até engraçadas. Chamadas informalmente de síndrome do cachorro-quente, que é uma tradução literal do inglês onde só se troca a ordem das palavras, nós brasileiros, quando encurtamos uma expressão, às vezes fazemos em inglês como se ela fosse em português, e assim, eliminamos a segunda parte, em vez de fazer isso com o início, pois em nossa língua o substantivo, que é a parte mais importante da mensagem, tende a vir antes da parte que o qualifica. Assim, chamamos de Shopping o que deveríamos chamar de Mall; dizemos que vamos ao show do Red Hot, enquanto os americanos dizem que vão ao dos Chili Peppers; ou ainda dizemos, num resort, que vamos buscar nossa snow ao invés de dizer board, pra se referir a prancha de snowboard, o que fica engraçado, pois parece que estamos dizendo que vamos buscar neve.

Isso sem falar das pérolas que todo mundo sempre tem uma para contar de situações engraçadas causados por falsos cognatos. E isso não é “mérito” de iniciantes. Dando aula em um curso de inglês, ouvi um professor contar o seguinte episódio (verídico!): numa aula sobre “Present Perfect” (aquele do verbo to have + o particípio passado, lembra?), o que nos situa que se tratava de uma aula de upper intermediate, o professor perguntou a um aluno se ela já tinha estado num cruzeiro e ouviu o aluno, fazendo toda aquela linguagem corporal com careta e tudo que tem direito, o que permitiu que ele percebesse que o aluno estava se referindo ao verbo enjoar quando respondeu: “No, teacher, I enjoy!”.

Existem vários falsos cognatos em inglês, chamados de false friends e em espanhol de falsos amigos, mas com aquele sotaque bonitinho(o que eu acho uma injustiça porque eles nem tem a intenção de não serem amiguinhos). Mas o que eu acho curioso mesmo é o que eu chamo de “falsos false friends”, que são palavras cognatas (também chamadas de transparentes), mas que por terem uma outra palavra não-cognata mais utilizada ou simplesmente porque soam muito como enrolação (vulgo “embromation”), você jura de pés juntos que está errado, mas não está. Isso aconteceu comigo a primeira vez que eu ouvi um brasileiro falando respiration, commence ou corridor e eu achava que apenas breathing, start (e begin e iniciate)ou hall, respectivamente, estavam corretos. Com o tempo, na dúvida, passei a sempre verificar e nunca mais subestimar uma palavra e achar que ela estava errada só porque eu não a conhecia ou porque soava estranho. Devemos dar a essas palavras o crédito da dúvida, partir do pressuposto que podem vir do latim e verificar antes de rir da cara de alguém (essa parte é importante, pois tanto pode ser como pode não ser). Existe muita influência do latim na língua inglesa, mais ainda no britânico do que no americano, por causa da proximidade com o francês, como, por exemplo, o uso de cemetery ou liberty enquanto os americanos usam bem mais as palavras graveyard ou freedom. Tanto é que em provas de proficiência em língua inglesa para pessoas que não têm o inglês como primeira língua, por serem consideradas difíceis, são usadas muitas palavras de origem latina para funcionar como “pegadinhas” (tricky questions). O que acaba facilitando pessoas cuja língua mãe é derivada do latim.

Enfim, a partir de agora, vale a pena começar a prestar atenção nesses detalhes, caso você não tenha esse hábito.  Afinal, como ouvimos desde criança, todo cuidado é pouco... .Um feliz 2008 para todos!!
 
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