Empregos e ocupações
A geração recorde de emprego com carteira assinada em 2007 junta-se às boas notícias da economia brasileira nos últimos anos. O país consolidou a estabilidade, fortaleceu a moeda, ampliou exportações, assegurou a confiança de investidores internos e externos e cresceu. É natural que a esse conjunto de indicadores favoráveis agregue-se a capacidade de abrir vagas no mercado formal, ou seja, com vínculo entre empregador e empregado. Governo, empresas, universidades e entidades formadoras de mão-de-obra devem, no entanto, atentar para algumas ressalvas que acompanham a euforia com o fato de que 1,6 milhão de oportunidades foram abertas nos mais variados setores.
São observações que não devem anular a repercussão de um fato positivo, mas estimular e ampliar reflexões que já vêm sendo feitas em torno da geração de trabalho no Brasil. A primeira ressalva é a que indica como tendência dos últimos anos a criação de vagas para trabalhadores com qualificação precária e, em conseqüência, com baixa remuneração. A característica predominante é a da ocupação braçal de áreas favorecidas pelos efeitos mais imediatos da recuperação da economia, como a construção civil. Observe-se que esse também é o perfil do emprego gerado por outros países considerados emergentes, como Índia e China, onde o trabalho, especialmente na indústria de eletroeletrônicos, calçados e vestuário, é considerado de baixa remuneração e qualificação. Observe-se, no entanto, que a economia dos dois países citados cresce em níveis que são pelo menos o dobro do brasileiro.
Nenhuma nação pode refugar ocupações, mesmo que precárias - e muitas vezes também temporárias, porque sustentadas por alta rotatividade - , até porque tais vagas com carteira assinada atenuam os efeitos da informalidade, com benefícios diretos inclusive para a Previdência Social. Mas é certo que uma nação com as pretensões e as possibilidades do Brasil não pode se contentar com a comemoração de um recorde como este.
Sabe-se que o cenário do mundo globalizado é, com raras exceções, desfavorável à geração de empregos formais para atividades dos chamados níveis médios das empresas, como supervisão e gerenciamento, em áreas administrativas ou técnicas. Mesmo assim, o Brasil poderia, com um crescimento acima dos índices dos últimos anos, oferecer ocupações melhor remuneradas também nesses níveis, ao lado do trabalho propiciado via terceirização de serviços, outra tendência irreversível em alguns setores.
O que se conclui da pesquisa do IBGE sobre a oferta recorde de emprego é que, sem ignorar a evolução do trabalho no mundo, os brasileiros podem, sim, continuar almejando crescimento econômico que resulte também na abertura de vagas para profissionais qualificados. Não se ignora que o cenário mundial é muito mais de oferta de trabalho do que de emprego, ou seja, a ocupação hoje não se traduz necessariamente em carteira assinada. Mas tampouco esse trabalho sem vínculos vem sendo criado no Brasil num ritmo condizente com as nossas potencialidades. Por tudo isso, o grande recorde do trabalho ainda está para ser gerado e comemorado no país.
O país gerou 134 mil vagas mensais com carteira assinada no ano passado, 31% mais do que em 2006. |