O anúncio do Banco Central de que o País já é credor líquido externo desde janeiro ajudou a reforçar os rumores iniciados na quinta-feira de que o País poderá obter o grau de investimento no curto prazo.
Essa expectativa favoreceu a continuidade da alta da Bovespa durante a maior parte da sessão - pela manhã ultrapassou os 64 mil pontos pela primeira vez este ano -, apesar das baixas dos índices acionários em Nova York. E também elevou o desinteresse dos investidores domésticos pela compra de moeda em meio à queda externa da moeda americana e um fluxo cambial positivo, com destaque para o segmento financeiro. Por isso, o dólar à vista acentuou as perdas à tarde até bater nas mínimas de R$ 1,70 (-1,42%) na roda da BM&F e de R$ 1,703 (-1,22%) no balcão. No fechamento, o pronto desacelerou as baixas, mas ainda assim ficou no menor nível de preço desde o encerramento do balcão em 26 de maio de 1999 (a R$ 1,701), ao ser cotado a R$ 1,710 (-0,84%) na roda da BM&F e a R$ 1,711 (-0,81%) no balcão. O giro financeiro somou cerca de US$ 1,958 bilhão (US$ 1,831 bilhão em D+2).
O Banco Central tentou amenizar o forte recuo do pronto fazendo o leilão de compra mais cedo que o habitual, pela manhã, e adquirindo um lote maior de moeda, de cerca de US$ 380 milhões - bem acima dos volumes recentes absorvidos do mercado pela autoridade monetária. No entanto, essa atuação foi insuficiente para limitar a baixa, o que gerou comentários de que o BC poderia voltar ao mercado com um segundo leilão, o que não se confirmou. No leilão realizado pela manhã, a autoridade pagou taxa de corte de R$ 1,709; e pode ter aceitado duas propostas entre as cinco que tiveram suas taxas declaradas. A oferta mínima foi de R$ 1,7086 e a máxima, de R$ 1,710. Até o momento, as principais agências de ratings Moody's, Fitch e S&P não confirmaram o upgrade do Brasil, embora tenham admitido que os fundamentos econômicos estão muito melhores do que no passado. A diretora de rating soberano da Standard & Poor's, Lisa Schineller, afirmou na quinta-feira ao AE Broadcast Ao Vivo que o "Brasil pode receber grau de investimento em 2008 da agência, apesar das incertezas globais, porque vemos que os fundamentos do País estão mais fortes".
"O Brasil tem a (avaliação) perspectiva positiva e pode receber o investment grade neste ano", frisou. De acordo com Lisa, para que o País se torne investment grade neste ano há necessidade de que "mostre sinais de que a economia continua robusta". Ela cita a importância de o País manter a inflação sob controle, cumprir o objetivo de obter um superávit primário de 3,8% do PIB e dar continuidade à boa velocidade de expansão do produto interno bruto (PIB). O humor positivo no mercado doméstico, porém, destoa da tensão vista hoje lá fora. Durante à tarde, os principais índices de ações do mercado norte-americano acentuaram as perdas, enquanto os preços dos Treasuries subiram rapidamente, com respectiva queda dos juros, e o dólar seguia em baixa ante o euro e o iene. Esse comportamento dos ativos reflete os fracos indicadores econômicos divulgados mais cedo e a busca dos investidores pela segurança nos títulos do governo, segundo traders e analistas ouvidos pela Dow Jones.
Além disso, o movimento de compra de Treasuries também é alimentada por especulações de que mais companhias financeiras terão de fazer baixas contábeis atreladas as problemáticas apostas de investimentos em hipotecas subprime. Às 17h02, o índice Dow Jones caía 1,04%, o Nasdaq recuava 0,89%; e o S&P500, -1,09%. No mesmo horário, o juro da T-Note 10 anos subia 3,22%, a 3,7736%. O dólar, por sua vez, perdia 0,73%, a 107,34 ienes; e o euro subia 0,69%, a US$ 1,4815. No mercado doméstico, o BC estimou pela manhã que a dívida externa total líquida - diferença entre a dívida externa bruta e os ativos do país no exterior, principalmente as reservas internacionais - tenha terminado o mês passado negativa em mais de US$ 4 bilhões. Isso significa que o País passou a credor externo pela primeira vez na história econômica. No mercado de dólar futuro, os cinco vencimentos negociados projetaram baixas, com um volume financeiro de cerca de US$ 13,672 bilhões (276.932 contratos). O dólar março08 indicou queda de 1,14%, a R$ 1,706.