Pelo menos 150.000 sérvios protestam em Belgrado contra independência de Kosovo
Belgrado - Pelo menos 150.000 s érvios reuniram-se na quinta-feira na região central de Belgrado para protestar contra a declaração de independência de Kosovo.
Mais cedo, centenas de reservistas do Exército sérvio atiraram pedras nos policiais e mantenedores de paz da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e entraram no Kosovo depois do confronto na fronteira.
Os manifestantes - a maior parte vestindo fardas e gritando "Kosovo é nosso! Kosovo é da Sérvia!" - atiraram pedras e queimaram pneus antes de atravessarem a fronteira na altura de Merdare, cerca de 50 quilômetros a nordeste de Pristina, a capital kosovar. Mais tarde, eles voltaram para a Sérvia e se dispersaram.
As aulas foram canceladas na quinta-feira e a companhia ferroviária estatal liberou as catracas para levar os manifestantes para os protestos em Belgrado, convocados para, segundo os organizadores, demonstrar o empenho da Sérvia em manter o controle sobre a província de 2 milhões de habitantes.
"Existe algum outro país na Terra do qual (as grandes potências) estejam exigindo a renúncia à sua identidade, o abandono de seus irmãos no Kosovo?", questionou o primeiro-ministro Vojislav Kostunica a manifestantes reunidos diante do Parlamento. "Ninguém na Sérvia jamais terá o direito de concordar com isso."
A multidão tremulava bandeiras sérvias e empunhava faixas com inscrições como "Abaixo o Terror Americano". Um grupo incendiou uma bandeira da Albânia. A maior parte da população do Kosovo é de etnia albanesa.
Não havia estimativa oficial do número de participantes, mas o tamanho e a densidade da manifestação sugeriam a presença de pelo menos 150.000 pessoas.
"Temos de reaver o que é nosso. O Kosovo sempre foi parte da Sérvia e a Sérvia nunca desistirá do Kosovo", disse Jovan Ilic, de Novi Sad, uma cidade situada 80 quilômetros ao norte de Belgrado.
Mais de uma dezena de nações reconheceu a proclamação de independência de Kosovo feita pela etnia albanesa no domingo. Entre elas estão os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha.
Mas a iniciativa foi rejeitada pela minoria sérvia que se concentra no norte de Kosovo e pelo governo de Belgrado. Numerosas outras nações, como China, Rússia e Espanha, também condenaram a iniciativa, argumentando que ela cria um precedente que pode ser explorado por outros grupos separatistas em todo o mundo. O Brasil aguarda uma decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a declaração de independência para assumir uma posição oficial.
Havia temores de que o protesto de quinta-feira acabasse em violência, mas até o momento não há informações referentes a incidentes graves.
No começo da semana, ultranacionalistas depredaram a embaixada dos EUA, lanchonetes da rede McDonald's e outros interesses ocidentais na capital. Sérvios acusam os EUA de serem os principais incentivadores dos separatistas kosovares.
Também foram atacados diretórios do pró-ocidental Partido Democrático Liberal em várias cidades.
Críticos afirmam que os ataques podem ser um prelúdio de uma ação do governo para silenciar a oposição e políticos pró-ocidentais na república dos Bálcãs, numa reminiscência da era quando o país era governado por Slobodan Milosevic.
A Embaixada dos EUA advertiu seus cidadãos para evitarem se aproximar da manifestação, porque ela pode degenerar em violência. "Negócios e organizações com filiação aos EUA podem servir de ponto de atração dessas manifestações", afirmou num comunicado.