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27.02.2008 imprimir Imprimir
 

Cristina Kirchner não convence Lula a repassar gás para a Argentina

Buenos Aires - Mesmo com a ajuda de seu colega boliviano, Evo Morales, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, não conseguiu convencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a equipe técnica do governo brasileiro, a ceder "uma única molécula" dos 31 milhões de metros cúbicos de gás que o Brasil tem contrato de compra diária da Bolívia. O Brasil, no entanto, ofereceu, em troca para a Argentina, energia elétrica, durante reunião na residência oficial de Olivos, em Buenos Aires

"Vamos ajudar a Argentina com o fornecimento de energia elétrica, algo em torno de 200 megawatts/hora, que serão compensados por eles, no momento em que puderem nos devolver, em energia", afirmou o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, ao confidenciar que os argentinos "queriam um milhão de metros cúbicos de gás, além da energia elétrica". Lobão avisou que "não haverá repasse de gás, mas de energia". E condicionou sua fala: "Se tivermos energia para fornecer". Com isso, o Brasil considera encerrado o assunto de repasse de gás para a Argentina, passando a tratar apenas o tema como energia, de uma maneira geral.

Na reunião foi decidida ainda a criação de um grupo de trabalho constituído por ministros dos três países, para "realizar permanentes estudos sobre as dificuldades (energéticas) da Argentina", conforme informou ainda o ministro Edison Lobão, em uma clara sinalização de que a situação do País com falta de energia é mais crítica do que se anuncia. A primeira reunião deverá ocorrer em dez dias, em La Paz. "Criamos o grupo de trabalho para que se possa não apenas discutir gás em época de inverno", afirmou o presidente Lula, depois de salientar que "os países do Mercosul têm de ser solidários, para ajudar uns aos outros".

Lula foi cauteloso nas suas palavras para evitar demonstrar que estava saindo vitorioso do encontro. Coube ao ministro das Minas e Energia deixar claro que "não tem gás" e "não vai dar gás" para a Argentina, repetindo o discurso do dia anterior de Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás, de que o Brasil "não cederia uma molécula de gás" porque precisa de todo o gás contratado para o consumo do mercado interno.

"Precisamos ter consciência que energia não é produzida apenas de gás", afirmou o presidente Lula, em entrevista, depois do encontro, na Base Aérea de Buenos Aires, pouco antes de embarcar de volta para o Brasil, tentando demonstrar que, apesar de não estar atendendo o pedido dos argentinos com o repasse de gás, estava atendendo o vizinho de outra forma. "O importante é que você tenha uma quantidade de megawats para atender (a Argentina)", prosseguiu Lula, salientando que "todos os países vão precisar de mais energia" porque estão crescendo a taxas superiores a 4%.

Apesar de no final do encontro a Bolívia ter afirmado aos demais integrantes da reunião que hoje está produzindo mais dos que os 42 milhões de metros cúbicos de gás por dia que sempre foi anunciado, no Brasil, as autoridades não acreditam neste número e o próprio presidente Lula deixou isso claro ao responder a uma pergunta se a Bolívia tinha como honrar, de imediato, todos os seus contratos de venda de gás produzido naquele país.

"No médio prazo tem", disse, justificando que "depois de muito tempo sem investimento, começou a haver novos investimentos na Bolívia, não só da Petrobrás, como do governo boliviano". E observou: "nós não vamos ter problema porque a Bolívia vai poder, primeiro, suprir as necessidades do mercado interno, e também os contratos que têm com a Argentina e o Brasil". A conta, no entanto não fecha porque embora só produza 42 milhões de m3/dia, a Bolívia tem de exportar 31 milhões/dia para o Brasil, tem contato de 7,7 milhões/dia para a venda à Argentina para este ano, além do consumo interno de cerca de 6,5 milhões m3/dia.

Esforço - Durante toda a entrevista, o ministro Edison Lobão fez questão de dizer que o Brasil "estava fazendo um esforço" para atender a Argentina. "Tanto quanto possível, vamos contribuir para minorar as dificuldades (da Argentina) , mas sem repasse de gás, e com repasse de energia, se tivermos energia para fornecer", avisou o ministro, explicando que será feito "um sistema de troca de energia" e que o Brasil "ofereceu energia a eles com certo limite". Afirmou, ainda, que o pagamento será em energia, "no momento que eles puderem pagar", sem precisar quando. No inverno do ano passado, quando a Argentina enfrentou racionamento, o Brasil repassou, em energia elétrica, o equivalente a quatro milhões de metros cúbicos de gás.

"O Brasil não vai abrir mão do gás. Continuamos com o contrato de fornecimento (da Bolívia para o Brasil) de 31 milhões de metros cúbicos de gás", avisou o ministro Lobão. Segundo Lobão, na reunião a Bolívia não pediu para que o Brasil reduzisse a importação de gás. "A Bolívia nada propôs. Ela participou da reunião no sentido de ajudar a Argentina", revelou o ministro.

Para Edison Lobão, a presidente Cristina Kirchner "ficou satisfeita" com a reunião, mas o embaixador da Bolívia na Argentina, Arturo Liebers, deu a entender que o encontro foi duro. "As caras dizem muito. Há muitas formas de ver a realidade", filosofou ele, comentando que os presidentes não saíram da reunião com caras satisfeitas.

A reunião foi dividida em duas partes. Segundo o assessor especial de Lula, Marco Aurélio Garcia, a primeira parte foi de compatibilização das informações de cada país e todos concordaram que existem problemas estruturais, justificando que, para contornar estes problemas de escassez energética, foi criado o grupo de trabalho e "um mecanismo de solidariedade energética".

 
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