
Um grupo de especialistas criou uma comissão para investigar o tratamento "abusivo" dado pelos agentes do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE) dos Estados Unidos aos imigrantes nas operações que realizam, já que violam, em muitas ocasiões, os direitos elementares da Constituição americana.
A comissão, criada no final do ano passado por membros da sociedade civil, sindical, acadêmica, religiosa e política, se reuniu hoje pela primeira vez na capital americana para definir seu marco de atuação e ouvir depoimentos de vítimas de operações e especialistas em imigração.
O grupo de especialistas se uniu a partir das batidas efetuadas pelo ICE em 12 de dezembro de 2006 em seis fábricas processadoras de carne da empresa Swift, operação na qual foram detidos 1.297 trabalhadores nas instalações da firma em Texas, Colorado, Nebraska, Minnesota, Iowa e Utah.
Nas batidas, os trabalhadores, muitos deles cidadãos americanos e residentes legais, foram retidos e interrogados durante seis horas sem que fosse permitido que tivessem acesso a advogados, banheiros, ligações telefônicas, água ou comida.
O presidente da comissão e principal responsável do Sindicato Unido de Trabalhadores da Alimentação e o Comércio (UFCW), Joe Hanson, disse à Agência Efe que nas operações o ICE viola "constantemente" a lei e os direitos constitucionais.
Pasqual Talamantes, de origem hispânica mas nascido em Alburquerque (Novo México), viveu em sua própria pele uma das ações realizadas pelo ICE no dia de Nossa Senhora de Guadalupe na companhia Swift.
Segundo ele, que trabalha na filial de Grand Island (Nebraska), os agentes do ICE "se apoderaram" da fábrica e lhe retiveram durante seis horas devido à "cor da minha pele".
"Intimidaram-me e ameaçaram-me. Foi algo muito duro e degradante.
Aquele dia me marcou e é como se tivesse uma tatuagem gravada", afirmou Talamantes, que reconhece que há "medo" na comunidade latina.
Da mesma opinião é Sonia Mendoza, empregada da Swift em Cacto (Texas). A americana disse que a operação em sua fábrica foi "terrível", principalmente porque os agentes do ICE, se excederam na hora de revistar as trabalhadoras.
Os agentes, que entraram "mascarados, com metralhadoras e pistolas e sem nenhuma identificação", violaram nesse dia "todos meus direitos". "Estávamos assustadas e traumatizadas", afirmou Mendoza.
A missão da comissão é investigar essas condutas "abusivas" dos agentes do ICE e analisar se violam a Quarta Emenda da Constituição, que protege os direitos dos cidadãos perante apreensões e revistas arbitrárias e exige um mandato de registro para "causas prováveis".
O grupo de especialistas realizará outras três ou quatro audiências em diferentes cidades americanas e, a partir dos depoimentos e dados recolhidos, elaborará um relatório público com suas conclusões e recomendações que enviará, previsivelmente no meio do ano, ao Congresso e ao Departamento de Segurança Nacional (DHS).
Eles pretendem mudar o marco que regula a lei de imigração, de modo que o DHS especifique as práticas que os agentes do ICE podem empregar nas batidas, e pressionar o Congresso para intervenha no assunto e impulsione uma nova lei migratória. |