Israel retira soldados de Gaza, mas afirma que saída é temporária
JABALIYA, Faixa de Gaza - Soldados israelenses retiraram-se do norte da Faixa de Gaza nas primeiras horas de ontem, depois de consecutivos ataques contra o território, deixando para trás um rastro de sangue e destruição após uma ofensiva contra rebeldes palestinos que resultou na morte de mais de 120 pessoas e levou os dirigentes palestinos a suspenderem os contatos de paz. Civis compunham pouco mais da metade dos mortos.
Apesar da retirada, porém, Israel mantinha os bombardeios e rebeldes palestinos continuavam disparando foguetes na direção do território israelense.
Militantes do grupo islâmico Hamas declararam vitória e festejaram na Cidade de Gaza, mas autoridades israelenses afirmaram que o recuo é temporário e advertiram que a ofensiva poderá ser retomada em breve caso os disparos de foguetes contra cidades israelenses não pare.
"O que aconteceu nos últimos dias não foi um evento isolado", disse o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, a integrantes da comissão de defesa do Parlamento.
"Tudo é possível: ataques aéreos, operações terrestres, operações especiais, tudo está na mesa. O que faremos, como faremos e o quanto faremos eles ainda irão sentir", disse Olmert, segundo um participante da reunião.
Mais tarde, Olmert defendeu que as negociações de paz continuem independentemente do derramamento de sangue, mas o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmud Abbas, suspendeu o diálogo até que cesse a violência.
A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, deverá chegar amanhã ao Oriente Médio para promover as negociações de paz, mas como Abbas suspendeu os contatos com Israel em protesto contra os ataques, é impossível prever o que a chanceler americana conseguirá concretizar.
Israel promoveu uma série de bombardeios entre a noite de segunda-feira a as primeiras horas de ontem. Uma instalação do Hamas foi atingida e cinco ativistas morreram, informou o grupo.
Apesar do alto número de vítimas dos bombardeios israelenses, os rebeldes palestinos mantiveram os disparos de foguetes contra o sul de Israel. Três projéteis atingiram a cidade de Ashkelon na manhã de ontem. Houve danos, mas não há informações sobre vítimas
Israel entrou em Jabaliya na sexta-feira como parte de uma ampla ofensiva desencadeada na semana passada. Os ataques a Ashkelon, a quase 20 quilômetros da fronteira de Gaza, marcam um significativo aumento do alcance dos foguetes palestinos.
Num discurso a simpatizantes, Mahmoud Zahar, homem forte do Hamas em Gaza, ameaçou com ataques a locais ainda mais para dentro de Israel caso a ofensiva seja retomada.
A jornalistas, Zahar reafirmou a prontidão do Hamas para negociar e afirmou estar em contato com uma terceira parte não identificada para discutir um cessar-fogo. Segundo ele, "se a agressão parar, a resistência também parará".
Entretanto, líderes israelenses relutam em negociar com o Hamas, apesar de uma pesquisa recente ter mostrado que dois terços dos israelenses são a favor do diálogo.
A infantaria israelense começou a se retirar de Jabaliya depois da meia-noite de ontem, informou o Exército.
Ao amanhecer, depois da saída, os habitantes de Jabaliya saíram às ruas depois de dias escondidos ou mantidos dentro de casa para observar o saldo da devastação e viram as ruas entrincheiradas, carros esmagados e postes de eletricidade arrancados. Médicos palestinos encontraram mais três corpos depois da retirada. Um deles foi identificado como militante.
Ahmed Dardouna, um morador da cidade, disse que ele e seus nove filhos passaram três dias presos na sala da casa da família depois que soldados israelenses ocuparam o imóvel.
"Não conseguíamos diferenciar o dia da noite", relatou. "O barulho dos tiros e das explosões misturado com os gritos dos soldados e o choro dos meus filhos quando pediam para comer ou ir ao banheiro não saem da minha cabeça."
Já a casa da família Asliyeh foi atingida por uma bomba que entrou pela parede e matou as irmãs Salwa, de 16 anos, e Samah, de 19.
"Não há palavra para descrever essa cena horrível. Não posso dizer nada além de que Deus é maior do que os agressores, e Deus há de nos vingar", declarou.
Ao todo, 121 palestinos morreram em Gaza desde quarta-feira, quando começou a ofensiva israelense. Civis compunham pelo menos a metade dos mortos, denunciou o grupo humanitário israelense B'Tselem. Dois soldados de Israel morreram nos choques em Jabaliya e um estudante israelense perdeu a vida num disparo de foguete contra Sderot.
Num episódio de violência ocorrido ontem na Cisjordânia, um colono judeu matou um adolescente de 17 anos que participava de um protesto contra a presença israelense no território palestino. |