Hugo Chávez realiza fórum contra o "terrorismo midiático"
Caracas - Nem o presidente venezuelano, Hugo Ch ávez, nem seu ministro de comunicação, Andrés Izarra, tinham aceitado até esta quinta-feira o convite para a abertura, amanhã, da reunião semestral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, pelas iniciais em espanhol), no Hotel Caracas Palace. Em vez disso, e prevendo as críticas que a entidade deve fazer à precária liberdade de imprensa na Venezuela, o governo de Chávez promoveu ontem a sessão inaugural de seu "Encontro Latino-Americano de Jornalistas contra o Terrorismo Midiático" - um fórum "alternativo" ao da SIP destinado a denunciar "a instrumentalização dos meios de comunicação privados por parte do império".
O encontro chavista se dá a apenas duas quadras do hotel que abrigará até domingo a reunião da SIP. Algumas dezenas de jornalistas - quase todos de meios controlados pelo Estado - compareceram ao auditório do Centro Rómulo Gallegos para a entrevista coletiva que apresentou os objetivos do fórum anti-SIP.
Entre os cinco membros da mesa de entrevistados, estavam o cubano Ernesto Vera e o brasileiro Beto Almeida, da Telesul, canal de noticias sul-americano do qual o Estado venezuelano é o maior acionista. Nas respostas, a "mídia burguesa", representada pela SIP, foi acusada de ter-se tornado "um instrumento da CIA" para levar adiante uma grande conspiração contra os "governos progressistas" da região.
Nenhum dos repórteres inscritos perguntou, mas Vera se antecipou a qualquer possível questionamento sobre a situação da liberdade de expressão em Cuba, afirmando que "o único jornalismo digno é o que atende aos interesses revolucionários e populares". Pouco depois, o presidente da mesa de entrevistados, o venezuelano Freddy Fernández, da Agência Boliviariana Nacional, acrescentou que "a liberdade de imprensa não pode ser a liberdade dos meios", assumindo a lógica chavista que levou o governo, em maio do ano passado, a não renovar a concessão da emissora Rádio Caracas Televisão (RCTV), a mais popular do país, que perdeu seu espaço no sinal aberto para a TVes, canal estatal de audiência baixíssima.
Depois que seus colegas de mesa apontaram o "terror midiático promovido pelo imperialismo" como causa de golpes de Estado como o que depôs Salvador Allende, em 1973, no Chile, e da fracassada tentativa de derrubar Chávez, em 2002, o brasileiro Almeida lembrou que a pressão da "imprensa alinhada com Washington", foi "fundamental para levar Getúlio Vargas ao suicídio, apenas 30 dias depois de ele ter fundado a Petrobras". Também assegurou que o "terrorismo" da grande mídia "derrubou o governo progressista de João Goulart, apenas 18 dias depois de ele ter anunciado as reformas de base".
Como o encontro da SIP, o fórum bolivariano também se estendera até domingo. Amanhã, a "SIP alternativa" promove uma marcha que passará na frente do hotel onde se realiza o encontro interamericano. "Assim sobrevive a imprensa livre venezuelana", disse à AE um jornalista venezuelano que participará da reunião da SIP. "Em meio a um estado de tensão constante, todos os que se atrevem a criticar o governo são qualificados de inimigos da pátria ou cães do imperialismo."