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09.04.2008 imprimir Imprimir
 

Luxo e excentricidade de um megatraficante a preços camaradas

Para quem vivia escondido e entocado em casa, quase sem sair dos limites do condomínio fechado em Aldeia da Serra, na Grande São Paulo, Juan Carlos Ramirez Abadía bem que sabia como levar uma vida de bon vivant. Tinha uma belíssima mansão com cinco suítes e piscina aquecida. Geladeira importada, carros importados, bicicletas importadas, 20 televisões de plasma importadas, lençóis e travesseiros, claro, também importados. Tinha quilos e mais quilos de jóias, roupas e sapatos que mal saíram da caixa. E, como todo megatraficante que se preze, até uma coleção de bonequinhas da Hello Kitty para ajudar a compor a imagem de milionário excêntrico.

A partir de amanhã (8), até domingo (13), das 12h às 20h, quem quiser ter um gostinho da extravagância e da vida de rei que Abadía levava em São Paulo, pode ter em casa alguns dos quase 2 mil bens que pertenciam ao colombiano. As peças, avaliadas em mais de R$ 2 milhões, foram entregues pela Justiça para serem revendidas em um superbazar no Jockey Club de São Paulo, que fica à avenida Lineu de Paula Machado, 599, no bairro Cidade Jardim.

O dinheiro arrecadado será encaminhado a entidades filantrópicas - o bazar contará com 19 salas repletas de badulaques de luxo, como 260 pares de sapatos femininos (números 36, 37 e 38), ternos, vestidos, meia centena de óculos de sol femininos, eletrodomésticos sem uso e móveis dignos de revista de decoração. Tudo com um desconto camarada (até as cuecas de Abadía foram parar no Jockey Club e custarão R$ 1).

LEILÃO - Na quarta-feira (9), às 21h, ainda será organizado um leilão com as peças mais caras de Abadía, como um Ford Rural Willys e um Jeep Willis Overland, vários relógios Rolex, Cartier, Chanel e Bulgari (no lote, há até um relógio Audemars Piguet que custa US$ 219 mil) e canetas especiais. Lances devem começar por 25% do preço.

"O mais importante desse evento é o ineditismo, serve como um divisor de águas para a Justiça brasileira", diz Lucien Delmonte, um dos organizadores e presidente da Fundação Julita, entidade assistencial que será beneficiada pelo bazar. "Essa decisão de revender os bens de um criminoso abre um novo horizonte para o terceiro setor."

Sapato Prada preto, número 39, sem uso, a R$ 300. Camisa Armani, colarinho médio, a R$ 100. DVD de "Os Infiltrados", filme de Martin Scorsese ganhador de quatro estatuetas do Oscar, a R$ 7. Ter o gostinho da vida do megatraficante colombiano, não tem preço. "Ah, claro que vai ter gente que vai por curiosidade, para comprar algo que era do Abadía", diz Delmonte. "Mas é preciso fazer uma consideração. O destino do valor arrecadado é absolutamente nobre, é isso que importa. Da nossa parte, esperamos mesmo que o Jockey fique lotado e que consigamos vender tudo. Há muitas miudezas, muitas peças sem uso, muitas coisas que valem a pena. Para você ter uma idéia, são quase 200 DVDs ainda fechados, todos de suspense e policiais. O Abadía tinha apenas dois filmes infantis, 'O Rei Leão' e 'Peter Pan'. Ele tinha também uma sala só com bonequinhas da Hello Kitty, mas isso eu não sei explicar não..."

CONDENAÇÃO - Abadía, chefe do cartel Vale do Norte, na região de Cali, é considerado um dos maiores traficantes de cocaína do mundo. Seu patrimônio era avaliado em R$ 3,4 bilhões pelo Departamento de Estado norte-americano - sua longa ficha de crimes incluiria mais de 300 assassinatos na Colômbia e 15 nos EUA.

No começo do mês, a Justiça Federal em São Paulo condenou o colombiano a 30 anos de prisão e multa de R$ 4,3 milhões por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, falsificação de documento público e corrupção ativa.

A mulher de Abadía e o braço direito do traficante, o piloto Luiz Barcellos, foram condenados, respectivamente, a 11 anos e 23 anos de prisão.

 
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