
Brasileiros presos por entrar ilegalmente nos Estados Unidos dividem celas com presos investigados por cometer crimes como assassinatos e estupros. Os brasileiros costumam ficar detidos nas cadeias aguardando deportação por até três meses. A informação é de órgãos de defesa dos direitos de imigrantes no Estado do Massachusetts.
Os brasileiros dizem enfrentar maus-tratos, frio e má alimentação nas penitenciárias. Uma das maiores colônias nos Estados Unidos, a região abriga mais de 200 mil brasileiros e tem, atualmente, entre 200 e 250 presos do Brasil. Outros Estados, como Nova Jersey e Texas, também teriam presos brasileiros nessas condições.
O Consulado Brasileiro em Boston reconhece que há brasileiros aguardando deportação junto com presos indiciados por crimes comuns nos Estados Unidos, "mas não com criminosos já condenados".
"Temos entre 100 a 130 deportados por mês, mas as prisões têm aumentado muito. O preso por questões de imigração teria que ficar num centro à parte. Existem pais de família brasileiros que nunca tiveram problemas no passado, mas que estão dividindo o espaço com presos comuns. Isso é horrível", fiz Fausto Rocha, presidente do Brazilian Immigrant Center, que fica em Massachusetts.
Brasileiro diz ter sido espancado
Antonio Wiliam de Souza da Silva, 23 anos, de Minas Gerais, ficou 43 dias em Plymouth antes de ser deportado. Ele chegou a escrever um diário relatando seu dia-a-dia. Silva vivia há 4 anos nos Estados Unidos e trabalhava na construção civil, quando agentes de imigração, chamados para resolver uma briga de casal, entraram na casa onde morava com vários brasileiros na cidade de Framinham.
"Arrombaram a porta e colocaram armas nas cabeças de todos. Eu estava de cueca e havia mulheres semi-nuas, com toalhas. Vi que havia um agente hispano e perguntei para ele se achava aquilo certo. Ele me levou para a escada e começou a me espancar", afirma.
Segundo Fausto Rocha, as condições dos cinco presídios no Estado são ruins. "Os presos entram numa dieta forçada e perdem mais de 20 kg", diz Rocha, que responsabiliza o Consulado Brasileiro em Boston por parte da situação. "Cada preso que vai ser deportado chega a ficar três meses preso antes de ser mandado embora. A demora nos documentos prejudica muito", conta.
O Consulado Brasileiro em Boston informa que, várias vezes, "já manifestou às autoridades norte-americanas a preocupação na matéria e o empenho em que os cidadãos brasileiros, encarcerados por razões migratórias, não dividam cela com presos comuns e sejam sim reunidos numa mesma ala". O consulado assegura que diplomatas visitam presídios da região regularmente.
De acordo com um funcionário de uma agência que lida com imigrantes em Nova Jersey, a manutenção de imigrantes com presos comuns é um procedimento considerado "de emergência", mas legal nos Estados Unidos. Segundo ele, no entanto, o ideal é que os presos fiquem nessas condições por, no máximo, um mês. Segundo entidades de assistência a imigrantes nos EUA, muitas vezes o prazo não é respeitado.
Prisão a brasileiros aumentou
O crescimento do número de casos de brasileiros detidos no exterior não é exclusividade dos imigrantes que vão para os Estados Unidos. Nos últimos 12 anos, o número saltou de 921 para 4.020, de acordo com o Itamaraty. As estatísticas podem ser ainda maiores, porque nem todos os governos fornecem os dados sobre o assunto.
Metade dos casos envolvem brasileiros que tentam a vida no exterior de maneira clandestina. Os crimes mais comuns são tráfico de drogas, prostituição, roubos e furtos. Vários brasileiros detidos em alguns Estados americanos, no entanto, foram presos por estar sem documentos no país.
"Esse tipo de imigrante ia para centro de detenções, mas os americanos alegam que eles estão lotados", explica Marcony de Almeida, advogado da Organização Não-Governamental Mira Coalition, que cuida de imigrantes nos Estados Unidos. |