Lula volta a rejeitar terceiro mandato
Haia - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou na quarta-feira (9) incômodo com a volta da proposta de terceiro mandato à cena política. Durante o vôo entre Brasília e Roterdã, na Holanda, onde desembarcou para uma viagem de quatro dias aos Países Baixos e à República Checa, Lula contou ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que autorizou a bancada do PDT a bombardear a idéia. "Eu já disse que é para parar com esse assunto", disse Lula, segundo relato de Campos.
Em reunião com quatro senadores do PDT, na terça-feira, o presidente ameaçou brigar com o PT se companheiros de partido teimarem em mexer na Constituição para encaixar a emenda que prevê o terceiro mandato, em 2010. O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que estava no encontro, disse que Lula não escondeu a contrariedade. "Se o PT insistir nessa história de terceiro mandato, eu rompo com o PT", esbravejou o presidente, segundo Cristovam.
Integrante da comitiva de Lula, Eduardo Campos afirmou que ele não repetiu o comentário na quarta-feira. Comentou, porém, que não gostou de ver o assunto ressurgir quando já estava praticamente sepultado. "Eu também sou contra o terceiro mandato e a discussão desse tema, agora, só atrapalha o governo, que vai muito bem em todos os setores", observou Campos.
Em Brasília, ninguém na cúpula do PT levou a sério a ameaça de Lula. "É mais fácil o Corinthians ser campeão paulista do que o Lula romper com o PT", afirmou o presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP), numa referência bem-humorada ao time do presidente, desclassificado do Campeonato Paulista.
Berzoini disse que o PT não apóia o terceiro mandato e quer que as mudanças defendidas pelo partido, como o fim da reeleição, sejam aplicadas apenas para os próximos governantes, não para os atuais. "Não vamos fazer como o ex-presidente Fernando Henrique, que derrubou as regras para atender a sua conveniência partidária e permitir a reeleição", provocou.
Nem o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), que prega mais tempo no poder para Lula, ligou para a cobrança do presidente. "Se Lula sair do PT, vai para onde? Para Garanhuns?", ironizou o deputado, numa referência à terra natal do petista. "Ele está bravo, mas eu estou muito calmo porque estou do lado do povo."
Devanir começará a coletar na próxima semana as 171 assinaturas necessárias para apresentar proposta de emenda constitucional que prevê a ampliação do mandato do presidente, governadores, prefeitos, deputados federais, estaduais, distritais e vereadores de quatro para cinco anos. O polêmico projeto embute uma manobra: não menciona explicitamente a possibilidade de mais um mandato, mas oferece o pacote de cinco anos no cargo, acompanhado do fim da reeleição.
"Ao mudar a Constituição, abrimos uma brecha para Lula pensar lá na frente se quer disputar e governar mais cinco anos", admitiu Devanir. "Isso tem risco porque qualquer um pode pegar carona nessa proposta e pôr lá a emenda do terceiro mandato", admitiu o líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PT-PE).
Auxiliares de Lula informaram que ele quer aproveitar a viagem ao exterior para esfriar o debate eleitoral. Em conversas reservadas, admitiu que foi um erro ter lançado a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sua sucessão com tanta antecedência. No Planalto, a avaliação é de que Dilma só virou alvo no episódio envolvendo a produção de um dossiê contendo gastos do governo Fernando Henrique por ter aparecido como herdeira preferida de Lula. Na viagem, o presidente disse que a população não quer saber de debate eleitoral nem de cartões corporativos: está interessada em emprego, salários e melhoria da qualidade de vida. |