Porto Pr íncipe - O presidente do Haiti, René Préval, falou na quarta-feira pela primeira vez desde que protestos violentos contra o alto preço de alimentos tomaram conta do país há uma semana. Em pronunciamento nacional, Préval pediu calma e o fim de saques em estabelecimentos comerciais. "A situação que o Haiti atravessa é mundial. Nós pagamos as conseqüências das más políticas aplicadas há mais de 20 anos no país", afirmou o presidente. "Há fome nos países pobres, mas também há fome nos países ricos." Préval pediu aos haitianos que parassem com os saques e com a destruição, alegando que esse tipo de comportamento não vai ajudar a resolver os problemas do país. "Ordenei à polícia haitiana e aos soldados da ONU que coloquem um fim aos saques."
Desde que os distúrbios começaram na semana passada, a violência deixou cinco mortos e cerca de 40 feridos. Na quarta-feira, numerosos grupos de jovens foram às ruas e bloquearam as passagens com pneus e pedras. Muitos comércios foram saqueados por manifestantes que levavam paus e armas. Uma emissora de rádio também foi apedrejada, no terceiro ataque contra empresas de comunicação do país nos últimos dias. Os soldados da Missão da ONU para a Estabilização no Haiti (Minustah), que protegem desde terça-feira o Palácio Nacional - sede da presidência -, lançaram gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. Na terça-feira, os soldados conseguiram impedir que manifestantes ocupassem a sede do governo.
Um dia depois do Conselho de Segurança da ONU reafirmar seu respaldo ao governo haitiano, o secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, também pediu calma à população. "O secretário-geral pede a todos os manifestantes a se absterem de novos atos de violência", afirma nota do gabinete de Ban. Ele assinala que "a Minustah - integrada em sua maioria por latino-americanos - e o sistema das Nações Unidas seguirão apoiando as autoridades haitianas para manter a ordem pública e para fazer com que chegue ajuda de emergência ao povo haitiano".
Préval anunciou um programa de auxílio para a produção local de arroz, leite e ovos em uma tentativa de frear a elevada inflação no país. Em uma semana, um pacote de cerca de 50 quilos de arroz que custava US$ 35 passou a custar US$ 70, enquanto o preço da gasolina subiu pela terceira vez em menos de dois meses.
O líder haitiano afirmou que pretende se reunir com importadores para tentar forçar uma queda no preço dos produtos alimentícios básicos. Préval também pediu que a população consuma produtos nacionais, estimando que essa atitude possa contribuir para resolver a crise atual. O Haiti, que tem 8,5 milhões de habitantes, é o país mais pobre do continente americano, e 80% de sua população vive com uma renda per capita inferior a US$ 2 por dia.