A crise dos alimentos, provocada pelo grande aumento de preços desde o ano passado, entrou na agenda do mundo rico, do Banco Mundial (Bird) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). O dano causado pela alta de preços equivale à perda de sete anos no programa internacional de combate à pobreza, disse na quinta-feira (10) o presidente do Bird, Robert Zoellick, descrevendo a alta dos preços agrícolas como emergência global. "Em apenas dois meses", citou, "os preços do arroz chegaram perto de recordes históricos, subindo cerca de 75% globalmente e até mais em alguns mercados". Em Bangladesh, um pacote de dois quilos consome quase metade dos ganhos diários de uma família pobre", acrescentou, levantando um saco de arroz diante de um auditório formado por dezenas de jornalistas de todo o mundo.
O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, sugeriu num carta a seu colega japonês, Yasuo Fukuda, que o Grupo dos 8 recomende às Nações Unidas, ao FMI e ao Bird que adotem uma estratégia global para combater a crise. Cópias da carta foram mandadas a Robert Zoellick e a Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI. Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Inglaterra,França, Itália e Japão formam o G-7. O G-8 inclui a Rússia.
"O FMI está pronto para participar desse trabalho", disse Strauss-Kahn, exibindo num mapa-múndi os efeitos da crise nas várias regiões. Em 23 países da África, com mais de metade do território do continente, as perdas na balança comercial serão superiores a 1% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2005. Nos demais, a deterioração será inferior a 1%. Perdas inferiores a 1% deverão ocorrer na Índia, na China, assim como na maior parte da Ásia, do Oriente Médio e na maior parte da Europa.
Brasil, Estados Unidos, Canadá, Rússia, Polônia, França e Austrália estão entre os países com ganhos comerciais abaixo de 1% do PIB de 2005. O ganho da Argentina pode superar esse limite
Um por cento do PIB é um número considerável em qualquer país. "Um problema na balança comercial significa um problema na conta corrente do balanço de pagamentos, e um problema na conta corrente é um problema para o FMI", disse Strauss-Kahn. "Acho absolutamente necessária a iniciativa de Gordon Brown e provavelmente falaremos sobre isso amanhã no G-7". A reunião deverá ocorrer no Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
"Podemos ter um New Deal para a Alimentação Global", afirmou o presidente do Bird, tomando emprestado o nome do programa de ação econômica lançado pelo presidente Franklin Roosevelt na depressão dos anos 30. Zoellick chegou à sala da entrevista, num auditório do subsolo do FMI, preparado para uma exibição dramática. Ele mesmo carregou o saco de arroz e o pão usado em seguida para exemplificar a situação dos pobres do Iêmen, condenados a gastar mais de um quarto de sua renda para comprar o pão, porque a cotação do trigo subiu 120% em um ano.