Brasil suspende exportações de arroz e garante abastecimento
Brasília - Para garantir o abastecimento interno e conter a alta dos preços no mercado interno, o governo decidiu suspender temporariamente as exportações de arroz, que poderiam chegar a 800 mil toneladas neste ano. A decisão foi anunciada na quinta-feira (23) pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, no Palácio do Planalto, após o lançamento de medidas de apoio à pesquisa agrícola, o chamado PAC da Embrapa.
"O Brasil é auto-suficiente em arroz e tem um pequeno estoque excedente, mas para a segurança do abastecimento nos próximos seis a oito meses, quando virá o período da entressafra, as exportações foram suspensas", disse Stephanes, lembrando que países africanos e sul-americanos haviam demonstrado interesse em importar cerca de 500 mil toneladas de arroz do Brasil.
A decisão do governo brasileiro segue uma tendência mundial. Nas últimas semanas, os maiores produtores mundiais de arroz, localizados na Ásia, também anunciaram a suspensão das exportações, o que, segundo avaliação do ministro, pode causar desequilíbrio na oferta mundial.
"Vamos acompanhar o movimento dos maiores produtores mundiais. Com o preço favorável, é possível que haja um aumento na produção e que a situação do abastecimento seja sanada até o ano que vem. Com base nisso é que vamos tomar outras providências no Brasil", disse Stephanes.
Os preços do arroz no mercado interno subiram cerca de 30% nas últimas semanas. Diante da alta, o governo convocou a iniciativa privada para uma reunião na quinta-feira, em Brasília, quando será discutida a melhor forma de vender parte dos estoques públicos de 1,4 milhão de toneladas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O volume é suficiente para suprir a demanda por aproximadamente 45 dias, mas a quantidade a ser vendida será definida.
Com o anúncio de venda dos estoques, o governo pretende estimular a comercialização da safra no mercado interno, já que 80% das lavouras foram colhidas, mas muito pouco foi vendido desde março, quando a colheita começou. Da safra total de cerca de 12 milhões de toneladas, apenas 1,5 milhão de toneladas foram vendidas até agora, de acordo com o governo.
Na avaliação do governo, os produtores estão retendo a produção á espera de novas altas das cotações.
"Vamos programar um leilão para ver se o mercado volta à normalidade", afirmou o diretor de Comercialização e Abastecimento Agrícola e Pecuário, José Maria dos Anjos, do Ministério da Agricultura. "Não é comum o governo intervir no mercado e vender nessa época do ano, quando a oferta de arroz costuma ser grande. Geralmente, nessa época, precisamos apoiar a comercialização para que o preço não recue abaixo do mínimo de garantia, ou seja, comprar", disse ele.
O presidente da Conab, Wagner Rossi, defendeu a venda como forma de suprir parte da demanda interna, estimada em 13 milhões de toneladas por ano. Ele disse, no entanto, que as vendas devem ser limitadas. "Não pretendemos vender todo o estoque durante o período de colheita da safra. Os produtores também precisam garantir o abastecimento", afirmou. Segundo ele, não é intenção do governo "derrubar" as cotações do arroz.
Os rizicultores não gostaram da idéia do governo. O presidente da Federação dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Renato Rocha, lembrou que os produtores tiveram prejuízos nos últimos anos e que não é justo que o governo intervenha no mercado no momento em que os preços estão em patamares melhores e acima dos custos de produção, estimados em R$ 26 por saca de 50 quilos.