Os Bancos Centrais e seus dilemas
Por George Miranda
Os Bancos Centrais estão num encontro na Basiléia, como fazem rotineiramente, mas agora estão diante da sua própria incapacidade de proteger a economia mundial. Os preços do petróleo estão em níveis inesperadamente altos. A inflação de alimentos é mais complexa do que imaginam os que apenas procuram no biocombustível um bode expiatório. A crise americana é grave e fica mais grave com a alta de preços fundamentais na cesta de consumo de qualquer família: alimentos e energia.
Os Bancos Centrais do mundo estão reunidos diante de três fantasmas que ameaçam a economia: crise americana, o preço do petróleo e a inflação. Os três põem em perigo o longo período de forte crescimento mundial. Hoje três bilhões de pessoas vivem sob uma inflação de dois dígitos, em 50 países diferentes. A crise americana é agravada pela disparada do petróleo.
A crise de crédito americana (e seus efeitos), que muita gente achava que já estivesse no caminho da solução. Comemoraram cedo demais. A opinião de muitos economistas é de que há mais por vir quando se trata de problemas nos bancos. As ações deles continuam caindo. Na segunda-feira, 30, por exemplo, o Lehman Brothers caiu 10%. No mês, já são 45%. O empréstimo interbancário também está lento, num sinal de que continua havendo insegurança dentro do próprio mercado bancário de solidez dos bancos. Há poucos dias, isso ficou explícito com o relatório da Goldman Sachs afirmando que o Citi ainda teria créditos podres. Como não existem dados públicos e confiáveis a respeito de quem tem — ou não — tais créditos, o resultado acaba sendo que os relatórios de instituições de mercado são sempre olhados com atenção. Uma das hipóteses é de que haja uma segunda onda forte de bancos com problemas.
O petróleo em alta aumenta a inflação, reduz a renda disponível de consumidores já abatidos por outros problemas, e ainda espalha a incerteza. O petróleo não está só alto; está imprevisível. A dispersão grande das previsões mostra que tudo pode acontecer. Uma incerteza assim produz retração de investimentos.
Quanto mais longo for o período de inflação alta, quanto mais incerto for o preço do petróleo maior será o impacto desses problemas no crescimento global. Foi exatamente a queda da inflação nos últimos 15 anos que permitiu um período tão longo de crescimento sustentado no mundo.
Em um relatório divulgado nesta última segunda-feira, 30, o BIS (o banco central dos bancos centrais), faz um bom diagnóstico; pena que um pouco tarde. Para os bancos centrais, a “causa fundamental para todos os problemas que estão surgindo agora foi o excessivo e imprudente crescimento do crédito por um longo período”. Assumem que os juros ficaram muito baixos por muito tempo. O documento também critica os novos produtos financeiros, o crédito de má qualidade e a falta de transparência do processo. Pode-se resumir o que eles dizem falando o que eles não diriam tão francamente: foi falha da regulação bancária, ou seja, um erro do Fed. Para o BIS, esta turbulência que a economia mundial atravessa é sem precedentes desde o pós-guerra.
Três fantasmas decidiram rondar a economia ao mesmo tempo e cada um agrava o efeito que o outro provoca.
*George Miranda é Economista formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). |