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   Colunas . Opinião por Francisco Sampa

15.10.2008 imprimir Imprimir
 

O Nobel e os riscos da crise

Anunciado num momento em que o mundo econômico e político se contorce para encontrar caminhos eficazes para a superação da crise dos mercados, o Prêmio Nobel de Economia 2008 foi para um nome apropriado: o economista Paul Krugman, que o jornal francês Le Monde qualificou como liberal intervencionista. As idéias de Krugman, críticas da condução econômica do governo de George W. Bush e favoráveis a uma presença adequada do Estado no gerenciamento da economia, valorizam a necessidade de um pragmatismo responsável. A concepção de que o mercado criaria suas próprias regras e de que estas conduziriam as economias a soluções corretas e sem sustos caiu por terra. Nem as instituições mais tradicionais e menos permeáveis a soluções fora da cartilha conseguiram manter-se coerentes face à realidade da derrubada geral dos mercados.

Neste sentido, nada mais ortodoxo em matéria de administração da economia e das finanças, nos Estados Unidos e no mundo, do que o Federal Reserve (Fed), que funciona como Banco Central norte-americano. Pois foi da presidência dessa instituição, que há alguns anos funcionava de fato como o oráculo da coerência e da sensatez, que mantinha o nome de Alan Greenspan como o porta-voz quase inatacável do rumo certo numa “era de turbulência”, que surgiu agora uma declaração que plasticamente retrata a revolução que a crise mundial das hipotecas e dos bancos provocou nas teorias econômicas, na concepção de mercado e até no próprio papel do Estado. Ben Bernanke, presidente do Fed e sucessor de Greenspan, afirmou que “não existem ateus nas trincheiras ou ideólogos em crises financeiras”. Nas duas situações, ou se reza pedindo a proteção de todas as forças da divindade para sobreviver aos bombardeios ou se adota o conjunto de medidas que, independentemente de sua origem doutrinária, sejam pragmaticamente apropriadas para a superação das aflições de uma crise que até os mais moderados já estavam considerando apocalíptica.

Pois as autoridades econômicas dos países mais afetados pela crise, em meio ao canhoneio das bolsas em queda e às aflições do mercado, estão optando por ignorar os xiitas do liberalismo e agir com o pragmatismo de quem precisa encontrar opções viáveis venham elas da esquerda ou da direita. Não há ideologia que resista à crise. Neste sentido, Paul Krugman tem sido uma voz poderosa a pregar a necessidade de que os governos sejam ativos e que, no caso da atual crise, assumam funções e adotem medidas que até há pouco seriam inconcebíveis. Neste caso estão, por exemplo, a compra de ações dos bancos, a estatização das hipotecas podres e o uso de recursos públicos bilionários para impedir a falência de instituições importantes para a manutenção do sistema financeiro. Um dos mais recentes e lúcidos alertas de Krugman em artigo no New York Times foi sobre os riscos para seu país e para o próprio sistema financeiro de a economia entrar em colapso num momento em que se registrava um vácuo de liderança mundial.

Há reservas de talento e de lucidez de que a comunidade humana precisa lançar mão em momentos de crise. Algumas estão sendo reconhecidas agora.
 
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