João Gilberto: o canto e o violão – Parte 2
(Este artigo é dedicado a J.T. Meirelles, importante baterista e compositor da bossa nova, falecido em 04/06/2008, aos 67 anos)
João Gilberto, com sua voz sem vibratos e integrada ao violão promoveu a mudança na forma de interpretar. Sua preferência era a interpretação da música valorizando-lhe a letra e, ao violão, realçando, como nunca se fizera, até então o instrumento em equilíbrio com a voz. Esse realce dado ao instrumento na gravação, fez com que a surpresa se instaurasse junto aos músicos ou estudiosos de música ao ouvir o disco pela primeira vez. Estavam ali acordes invertidos de Tom Jobim em diálogo com a batida sincopada e o canto que realçava a letra.
Até então o samba era tocado acentuando-se o tempo maior. João aperfeiçoou seu violão, introduzindo a síncope, acentuando o tempo fraco, provocando mais tensão, mais tensão, mais suingue, roubando de cena o tempo forte, característico do samba antes dele, como aponta Zuza Homem de Melo, no livro, da série A Folha explica: João Gilberto.(Publifolha, 2001)
A acurada audição do violonista, sua obsessão pelo perfeito, seu profissionalismo provocaram a mais importante mudança da Música Brasileira que influenciou as gerações seguintes. Portanto, não se pode enxergar a bossa nova, como movimento restrito à Zona Sul do Rio de Janeiro, que cultivava um mundo particular, em que singrava o barquinho, o amor o sorriso e a flor. Um violão, um canto quase sussurrado e mais nada. É algo elementar, a bossa nova era música para jovens, porém o que era apresentado de forma revolucionária, nada mais era do que o samba, desde o mais tradicional sincopado de Geraldo Pereira ou um Dorival Caymmi.
João Gilberto, baiano de Juazeiro, aos 77 anos, cativa platéias pelo mundo que o ovacionam, interpretando a mais pura música brasileira e demonstrando como tocá-la em sua essência. Num paralelo com o futebol, não é um ídolo popular no Brasil como Pelé, mas fez por nossa música o que este último fez com o futebol. E prova disso é que onde quer que se encontre um grupo de músicos que toquem jazz e lhes peça que toquem uma música brasileira, provavelmente ouviremos uma música de Tom Jobim que João tenha gravado.
Trata-se do maior cantor brasileiro vivo. Seus shows emocionam, encantam e surpreendem pela capacidade de inovar na interpretação e trazer a mesma música com características que, pensávamos, antes não as tínhamos percebido. Ao reclamar das condições de apresentação, não o faz por pedantismo, ao contrário, o faz por deferência a quem ouve música, pois quer apresentar seu canto perfeito para que todos possam perceber a Música em sua plenitude, o que só ele é capaz de fazer com tamanha genialidade. |