ENTRE SONHADORES E PÁSSAROS – TOM ZÉ
Tom Zé acaba de lançar o disco Tom Zé - Estudando a Bossa Nordeste Plaza (Biscoito Fino, 2008 ). São 15 músicas que inventariam o movimento sob a ótica anárquica deste compositor baiano, nascido em Irará, vivente de inacreditáveis 72 anos. Nunca se portou como sonhador, antes persistiu em seu vôo, pássaro visionário.
Desconhecido da maioria dos brasileiros, particularmente daqueles com menos de 50 anos, já que nunca nunca freqüentou qualquer lista dos mais vendidos, nem esteve presente em programas populares. O grande momento de Tom Zé frente ao grande público foi a vitória do IV Festival da Música Popular Brasileira (1968), promovido pela TV Record, com a música São Paulo, meu amor. Até ali Tom Zé fazia parte do movimento tropicalista.
Com o fim dos festivais, compositores que persistissem em prosseguir numa via rebelde em relação aos modelos de canção, aceitáveis para divulgação ao público, seguiram para a marginalidade. Sua rebeldia estética, materializada em composições dissonantes, letras por vezes incompreensíveis, levaram-no ao mais completo ostracismo.
Nos anos 1990, o compositor David Byrne produziu uma coletânea de sua obra (The Best of Tom Zé), lançando-a no mercado americano. A partir daí, o compositor passou a receber elogios da imprensa americana, sendo o disco escolhido como o terceiro melhor da década pela Revista Rolling Stone. Pela internet poderão ser colhidos diversos registros de matérias favoráveis ao trabalho publicadas no exterior, bem como dados sobre as numerosas turnês e regravações de suas obras por diversos artistas consagrados, alçando Tom Zé ao posto de grande artista brasileiro no exterior. Reconhecimento dificilmente recebido em seu próprio país.
As músicas de Tom Zé não obedecem a uma ordem para audição confortável, suas músicas transgridem as formas convencionais, de modo propositalmente provocativo. É dessa forma e com a autoridade de quem viveu o momento, que assumiu, o projeto de cantar e apresentar para os aprendizes a bossa-nova. Todos os elementos estão desenhados no disco, com a grife deste compositor.
Com elegância e desafio o trabalho surge no ano do cinqüentenário da bossa-nova em que se exaure a audição de clássicos como Wave, Barquinho e Balanço Zona Sul, reduzindo o fenômeno que revolucionou a música brasileira a um modismo de elite. Para produzir este disco, Tom Zé trabalhou com liberdade total e produziu “um disco para se ouvir lavando prato” como definiu em entrevista concedida a Patrícia Palumbo em seu programa da Rádio Eldorado.
O disco se abre com a voz de Getúlio Vargas, presidente morto em 1954, identificando o aspecto político social da época, retratado na música Brazil, capital Buenos Aires. A partir daí, desfilam-se todas as síncopes necessárias para relatar o surgimento da Bossa-Nova, os elementos já presentes no samba-canção até o choque que a interpretação de João Gilberto provocou nos cantores tradicionais e a conseqüente subversão na forma de interpretar a música brasileira.
Sinteticamente a bossa-nova introduziu modificações na forma de execução e interpretação do samba, que permitiu a compreensão de nossa música no exterior. São essas mudanças retratadas nas letras do autor e Arnaldo Antunes, traduzidas nas melodias e harmonias de cada faixa. Do samba-canção ao rock, passando pelo baião, referências necessárias para compreensão do movimento.
Tom Zé compara a mulher às síncopes da bossa-nova e essa comparação consolida-se na opção de interpretação das músicas, pois convocou para acompanhá-lo algumas das melhores cantoras da atualidade, como a perfeita Mônica Salmaso (Barquinho-Herói), Mariana Aidar, Fabiana Cozza, Marina della Riva, Anellis Assumpção, Jussara Silveira, Márcia Castro, Badi Assad, e as pop Zélia Duncan e Fernanda Takai.
Em resumo, este “disco para se ouvir lavando pratos”, um documentário sonoro, como define Júlio Medaglia, demonstra a modernidade da bossa-nova tão bem aplicada por Tom Zé. A dúvida que resta, ao final do disco e, após sucessivas audições, é qual seria o tipo de prato a ser lavado ao ouvi-lo? Ou melhor seria ouvi-lo simplesmente?
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