JOÃO DO RIO - JORNALISMO DE COMEÇO DE SÉCULO
"O jovem chegado do norte, à meia-noite, estava no seu quarto, pensando. Tinha vinte anos. Queria subir rapidamente. (...) O jornalismo leva a tudo, mas é, especialmente a profissão sonhada: glória, fama, dinheiro, tudo fácil! (...) Então ele viu a ânsia perdulária do dinheiro nos jornais, ele viu que as remunerações secretas dos governos são regateadas e pagam mal, ele viu que não o compreendiam sincero e bom, senão com o fito de gorjetas vergonhosas, ele compreendeu o trabalho dilacerante e exaustivo dos que tinham subido, e a fúria com que se agarravam às posições, (...). Não era o esplendor. Era a miséria infernal.” Charuto Filipino
O jornalista Paulo Barreto parou na calçada e definiu sua direção. Era simples escolher um roteiro, pois cada parte da urbis, como chamava, provia fartamente suas crônicas, o que lhe proporcionava prazer, ainda que identificasse aspectos de que não gostasse ou fosse conflitante com seu mundo. A necessidade de andar era fundamentada num modo de ser que conheceu em suas viagens à Paris: o flâneur, que observava em suas caminhadas exatamente os tipos das ruas. Aos vinte e sete anos havia amadurecido e compreendido, ainda que amargamente, a relação da imprensa com as elites das quais ele fazia parte.
Nascido em família de bom nível, Paulo concluiu os estudos com o auxílio do pai, um respeitado educador. A rigorosa formação despertou-lhe o encanto pela profissão de jornalista e aos dezesseis anos foi trabalhar num jornal, aos dezoito escreveu seu primeiro artigo e nunca mais parou. De qualquer modo conseguiu ir além, desprendendo-se de frustrações alheias, alimentando a própria frustração com cultura, realçada pela investigação dos marginais de sua cidade. Essa mistura tornou-o um jornalista bastante lido e respeitado. Sabia o que escrever para agradar as elites, não se envolvia com a dor dos miseráveis, mas a tornava totalmente exposta assim como a toda a mediocridade, dolorosa ou não, que enxergava em seus passeios pela cidade e pelo mundo. A cidade em que vivia no começo do século XX era o Rio de Janeiro, a Capital Federal do Brasil, remodelada, adaptada aos novos tempos, ao grande número de gente que chegava em busca de trabalho e de sobrevivência. A cidade passava por uma política sanitarista e de urbanização acentuada.
Entre os vinte e os trinta e nove anos, Paulo, sob vários pseudônimos, registrou as mudanças de sua cidade, que crescera rumo ao mar, abrigando uma nova elite e espantando do centro os pobres que se mudavam para pontos mais distantes. Nesses registros as marcas sociais eram indeléveis e evidentes. Sua cidade, o Rio de Janeiro, era encantadora. Esgueirando-se pelos becos sobraram personagens que Paulo, agora João do Rio, passou a buscar em seus passeios, andanças, hábito necessário ao repórter que buscava a notícia no cotidiano, nos assuntos corriqueiros.
Nos diversos jornais em que trabalhou, tornou-se popular, sagrando-se como o maior jornalista de seu tempo. Usou vários pseudônimos, além de João do Rio, tendo deixado obras importantes, sobretudo como cronista. Foi o criador, no jornalismo, da crônica social moderna. Ao falecer em 1921 era diretor do diário A Pátria, que fundara um ano antes.
Seus registros, embora valiosos, sempre foram acompanhados de decepção e, até, um certo horror às mazelas que prazerosamente procurava. Era como se ele visse o mal, enxergasse a dor, mas se ocultasse no conforto de saber-se culto, em boa situação financeira. Esse horror foi destilado na crueza de seus registros. Nada do que narrou fugiu a essa lógica, o que permitiu a realização de um trabalho jornalístico inédito até então.
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