Zelaya descarta 2º mandato, mas reafirma plano de mudar Constituição
O presidente derrubado de Honduras, Manuel Zelaya, disse na terça-feira que não pretende se candidatar à reeleição quando seu mandato terminar, em 27 de janeiro, mas afirmou que seguirá adiante com seu projeto de mudar a Constituição do país.
"Eu volto à vida civil, à vida cidadã, não à política", afirmou Zelaya na entrevista coletiva que concedeu após discursar na Assembleia Geral da ONU.
O presidente deposto destacou que a legislação hondurenha proíbe a reeleição presidencial e que qualquer reforma constitucional beneficiaria os próximos governantes.
Ressaltou ainda que, quando o mandato acabar, retomará a vida de empresário agrícola que deixou após ser eleito em novembro de 2005.
"Em Honduras não há reeleição. Não há nenhuma possibilidade, sob nenhum conceito", insistiu.
Zelaya também reafirmou a intenção de voltar a Tegucigalpa na quinta-feira para "tentar dialogar" com os golpistas que o derrubaram no domingo.
O presidente deposto declarou que, nessa viagem, será acompanhado pelos presidentes da Argentina, Cristina Kichner, e do Equador, Rafael Correa, e também pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, e o atual presidente da Assembleia Geral da ONU, Miguel D'Escoto.
"Não posso ficar fora do país com o que está acontecendo", afirmou Zelaya, que disse não temer a reação das autoridades militares com sua chegada a Honduras.
O novo Governo de Honduras reafirmou na terça-feira que o presidente deposto violou a Constituição e as leis, por isso será preso se retornar ao país e condenado a até 20 anos de prisão.
"Quem me protegerá? O sangue de Cristo e minhas convicções", respondeu Zelaya à pergunta feita pela imprensa.
O governante deportado disse ainda estar convencido de que os mesmos militares que o detiveram e o mandaram para a Costa Rica com o apoio de outros órgãos estatais permitirão sua entrada no país para que retome suas funções.
"Eu acho que as Forças Armadas de Honduras vão se retificar", afirmou, acrescentando que a condenação internacional ao golpe militar facilitará seu retorno ao poder.
Um dos objetivos de Zelaya depois que voltar para Tegucigalpa é ouvir a opinião do povo hondurenho sobre mudanças na legislação que permitam a criação de mecanismos de consulta permanentes aos eleitores.
"O que queremos instaurar é um processo de participação cidadã, e é a isso ao que se opõem", disse.
O chefe de Estado deposto reafirmou a legalidade da consulta popular que provocou a crise em Honduras.
"Se cometi algo ilegal, que me levem a julgamento, que permitam me defender. O que não podem fazer é romper a ordem constitucional", destacou.
Zelaya pediu a seus seguidores em Honduras que expressem sua oposição ao golpe militar com paralisações, manifestações pacíficas e outros métodos de desobediência civil não violentos.
No discurso na Assembleia Geral da ONU, disse que "a elite" hondurenha tirou-o do poder porque pretendia introduzir mudanças que reduziriam as desigualdades sociais.
"Fui acusado de ser um populista, de ser um comunista que quer arruinar o país. Mas em Honduras há muitas injustiças oriundas da desigualdade", afirmou.
Antes do discurso de Zelaya, os 192 países da Assembleia aprovaram por unanimidade uma resolução que, além de condenar o golpe militar, pede a "imediata e incondicional" restituição do político como presidente "legítimo e constitucional" de Honduras.
"Esta resolução expressa a indignação do povo de Honduras e do resto da comunidade internacional", disse o governante derrubado.
Após o discurso na Assembleia Geral, Zelaya foi para Washington, onde participa de uma sessão extraordinária da OEA.