Quer eternizar uma imagem? Faça uma tatuagem!
Por Rose Parra
Há alguns anos tatuagem era coisa de ‘malaco’, mas quanta coisa mudou nos últimos tempos. Hoje em dia artistas, modelos, gente importante, pessoas comuns e de todas as idades rompem as regras e realizam um sonho: fazer uma tatuagem. Quem garante que grande parte do preconceito acabou é o tatuador André Luis Cristofalo, 42 anos, o André Tattoo’, proprietário do ‘Studio Vênnus Tatuagens e Body Piercing’, localizado em Indaiatuba. Ele já eternizou a imagem em muitos corpos. Só em Indaiatuba André atende em média cinco pessoas por dia e isso há 18 anos.
André é um artista e por isso tem muitas histórias para contar sobre os desenhos gravados por ele na pele das pessoas. Ele conta como as tatuagens entraram em sua vida e como o número de pessoas que decidiram ‘eternizar imagens’ cresceu.
André desvenda o que as tatuagens guardam sobre as pessoas: seu significado e representação, os porquês de tatuar-se, a relação com sua identidade e história pessoal. E para ele as tatuagens são mais que uma forma de arte: são memórias, são autobiográficas, contam a história da pessoa que se deixa tatuar.
Com mais de 30 tatuagens espalhadas pelo corpo, André aponta a preferida: o rosto do filho, Luiz Fernando, hoje com 18 anos e seguindo os passos do pai. A filha de cinco anos em breve somará mais uma tattoo no corpo de André, afinal é muito bom gravar no corpo as coisas mais importantes da vida.
“Decidi fazer a tatuagem eu mesmo”
“Fiz à mão minha primeira tatuagem com agulhas amarradas com uma linha e com tinta. Era uma aranha. É um método primitivo e não é seguro. Claro que não ficou muito legal. Depois disso procurei um profissional e ele consertou a tatuagem. A partir daí comecei trabalhar com tatuagens. E descobri que eu tinha o dom porque eu sempre deixava o resultado muito mais bonito. Aprendi rápido e procuro trabalhar com a alma, projetar isso, canalizar bem”, conta André.
“É claro que a cada dia você cresce mais, aprende mais, vai se transformando, modifica a sua aplicação e a sua técnica, então os resultados vão crescendo”, garante.

“As pessoas têm que saber o que é essa arte, como é feita e, principalmente, quem a faz”
“Eu sempre me preocupei em querer mostrar para a sociedade essa expressão de arte porque é arte realmente, não é uma coisa de marinheiros e de bandidos como se falava antigamente. Tenho em casa uma pintura feita à mão em azulejo. É maravilhoso o ‘cara’ que faz isso é um artista”, ressalta André.
“As pessoas também têm que saber o que é essa arte, como é feita e que quem faz não é vagabundos! São pessoas que estudam, que se dedicam à arte, são pais de família, pessoas de boa índole, com um bom caráter. Tanto nessa profissão como em qualquer outra, existem os bons e os maus profissionais em tudo na vida”, explica André
Unindo gerações
Durante a entrevista André tatuava o braço esquerdo de David Ramos, 45 anos, pai de três filhos: Kim, Yan e Winnie. Todos: pai e filhos têm tatuagens. E feitas, claro, por André!
David estava sendo tatuado com a imagem de uma super heroína: Psylocke. Ele mesmo levou o desenho que André acabou ‘gravando no braço esquerdo de David’. É a quarta tatuagem que David faz. A primeira foi uma Fênix, a segunda um número na virilha que ele se recusou a divulgar e a terceira uma Triquete – símbolo da magia.
“Desde os 15 anos sempre quis fazer uma tattoo, mas e o medo dos pais e da sociedade?”, confessa David. “Aí tomei coragem e aos 41 anos fiz a primeira e os meus filhos já fizeram as deles”.
Em Família
Na sala de espera de André Tattoo também estava a família Maso: Paulo, Meire e o filho Victor de 15 anos. Eles procuravam pela imagem ideal. Meire tem seis tattoos. Paulo, o marido e o filho Victor estavam escolhendo a primeira.
“A tatuagem é algo bem pessoal, que não deve ser misturado à vida profissional ou à personalidade de cada um. Atualmente é um assunto meio 'fashion', virou moda, mas eu acho bonito e sempre gostei de tatuagens independente do ‘modismo’, revela Meire.
“As pessoas têm que entender que não é a tatuagem que faz o caráter da pessoa. Não é a tatuagem que mostrará a capacidade de cada um. A pessoa é capaz. Nós temos cientistas e pessoas importantíssimas na sociedade que têm tatuagem. A tatuagem não interfere no comportamento ou no resultado do trabalho dessa pessoa para a sociedade. Ela desempenha perfeitamente o seu ofício e tem a tatuagem como uma forma de adorno, assim como tem gente que gosta de um relógio, de uma corrente, gosta de vestir uma calça ou uma camisa legal é a mesma coisa: você tem como uma jóia mesmo. É uma coisa bem pessoal”, lembra Meire Maso pós-graduada em Marketing.
O marido, Paulo, tem uma crença e quer eternizar no braço a figura de Xangô, o Orixá da Justiça. Paulo é empresário na área de Administração de Empresas, consultoria e treinamento. Atende clientes em todo Brasil. O filho, Victor, fará 16 anos no próximo dia 19 e está ansioso: a tatuagem escolhida será feita na sexta-feira (11/9). “Será um dragão”, conta Victor
Sem arrependimentos
Do mesmo modo que o tatuador precisa saber o que faz, a pessoa que quer fazer uma tatuagem precisa ter certeza do que quer, para não haver arrependimentos. "Antes de topar fazer a tattoo, a pessoa deve se identificar com o artista. Ela deve ter certeza daquilo que quer, onde quer fazer o desenho, do estilo e do artista que tem afinidade com aquele estilo. Tudo isso antes da adrenalina, antes da vontade que acaba te cegando. Deve ter muita calma", alerta André.
O barato que sai caro
André revela que muitas vezes as pessoas querem fazer uma tattoo e acham que custa caro, então acabam fazendo em qualquer lugar. Acontece o óbvio: o cliente não fica feliz e aí o ‘barato sai caro’ porque a pessoa precisa refazer a tattoo.
O arrependimento normalmente ocorre quando a pessoa vai ao estúdio, faz o orçamento do desenho que queria tatuar e acaba descobrindo que o preço não condiz com aquele que ela pretendia pagar. Essa pessoa acaba recorrendo a um tatuador sem experiência e faz simplesmente por fazer. O trabalho que levará na pele não é nada pessoal e a pessoa acaba se arrependendo", explica.
A arte sobre a pele
Fazer arte sobre a pele não é moda nova. As tatuagens já eram feitas nos guerreiros que venciam batalhas e passavam a ser reconhecidos por essas marcas que orgulhosamente carregavam.
Desde a década de 50 até o século XXI, muitas técnicas foram aprimoradas. Quando a tatuagem chegou ao Brasil por volta de 1950, havia apenas cinco cores disponíveis, os traços eram grossos, as agulhas limitadas e os desenhos não podiam ser muito trabalhados.
Agora cerca de 70 tonalidades para pele estão disponíveis no mercado, o que possibilita desde o degrade até verdadeiras pinturas na pele de acordo com os profissionais da área.
Dói ou não dói?
O início do processo de fazer uma tatuagem normalmente é dolorido. Durante os primeiros minutos, o impacto é mais forte. Depois desse tempo, o organismo de certa forma se acostuma. O processo volta a ser dolorido cerca de duas horas depois, quando a situação começa a incomodar.
'As tatuagens com cores que fogem do tradicional preto e branco doem mais'. Mito ou verdade? Mito. Na verdade, o motivo da 'dor maior' é o tempo necessário para se fazer uma tatuagem colorida. O trabalho é mais demorado para se fazer um degrade, por exemplo, e a exposição à dor por um tempo maior, cria a ilusão na pessoa que está sendo tatuada de que o desenho colorido dói mais.
Censura
Da década de 1980 para cá, a imagem que se tem de pessoas com tatuagem foi mudando no Brasil. No começo, apenas algumas tribos carregavam essa 'arte na pele'. As pessoas dessas tribos eram tidas como diferentes e até mesmo associadas à prostituição e à marginalidade. Muitos eventos que promovem a tatuagem e os piercings e outros tipos de arte aplicáveis ao corpo contribuíram para que houvesse essa mudança.
"Faço tatuagem em menor de idade somente com autorização dos pais ou responsáveis”, garante André. “O engraçado é que antigamente os pais traziam os filhos com a autorização para fazer uma tatuagem. Hoje são os filhos que trazem os pais", comenta.
O tatuador conta que faz trabalhos em pessoas de todas as idades, níveis culturais e sócio econômico. “É possível fazer um desenho em 20 minutos e há casos que são necessárias mais de 40 horas, claro que feita em várias fases”, diz.
Profissionalismo
“Até hoje clientes de 15, 20 anos atrás vêm ao estúdio e estão satisfeitos com os trabalhos. Tinha preconceito? Tinha, mas isso foi sendo quebrado e está sendo até hoje. Com essas iniciativas, as pessoas passaram a aceitar mais a tatuagem. Gente de praticamente todas as profissões começou a se tatuar e a tatuagem foi se inserindo na sociedade, foi ramificando. Hoje você não encontra tatuado de uma única profissão, pode ser de qualquer área. Aliás, não há uma única área em que não tenha algum profissional tatuado. Desde juiz, promotor, advogado, médico, dentista, esportista... Em todas as profissões têm pessoas com tatuagem e elas estão mostrando mais. Com isso estão quebrando qualquer tipo de preconceito”, avalia André.
“Não sei dizer o número de tatuagens que já fiz. Sempre respeitei o gosto de cada cliente, respeito a vontade de cada um. Com a tatuagem você satisfaz um desejo pessoal. A pessoa quer realizar um sonho e você colabora para isso. Eu oriento se ficará bom em relação à técnica, à aplicação de cor, se a pele da pessoa é mais queimada ou menos queimada, se tem muito pêlo no local ou não, se o local em que fará é bom porque acompanha a anatomia, mas a escolha é do cliente”, salienta.
“Gosto do que faço e procuro fazer o melhor. Para mim todas as pessoas são importantes. Desde aquela que fará uma estrelinha que tenha só o contorno, até quem vai fazer um trabalho de 40 horas”, finaliza André.
Dicas para escolher um bom tatuador:
Segurança com a sua saúde.
Em primeiro lugar verifique se o profissional que você escolheu cuida da sua segurança com relação à saúde. Existem muitas doenças sendo transmitidas por tatuagens e piercings atualmente e os riscos estão aumentando com o surgimento de novos vírus e bactérias cada vez mais difíceis de serem combatidos devido a sua crescente resistência.
Sua curtição pode se transformar num terrível arrependimento se você confiar demais no artista e não se prevenir o suficiente.
Como existe contaminação com sangue durante o processo de tatuagem e piercing, (sim, sai sangue, lógico!), os cuidados devem ser os mesmos de uma cirurgia, mas nem todos os tatuadores têm vocação para medicina como você perceberá.
AIDS, hepatites, herpes e sífilis são apenas algumas das doenças que passam diariamente pelas agulhas de tatuagens e piercings e que podem ser transmitidas desta forma.
80% dos portadores da doença hepatite C, que contamina silenciosamente mais pessoas do que a AIDS portam tatuagens.
Preste muita atenção se os bicos e agulhas são descartáveis e se o tatuador está abrindo uma embalagem nova.
Peça para levar com você o bico e as agulhas que ele usou na sua tattoo. Este material é barato, mas pode ser uma tentação para o tatuador reutilizar uma ou outra. Se todo mundo levar as suas agulhas e bicos de lembrança, ninguém correrá o perigo de ser contaminado.
Luvas são sinal de que ele sabe dos riscos que rolam na hora de tatuar e que ele dá valor para a higiene. O local de trabalho também reflete isso. Se o tatuador não usar luvas, bicos e agulhas descartáveis abertas na sua frente, não vacile, nem ouça conversa fiada. Saia correndo!
Detalhe que todo mundo pergunta:
Não dá para tatuar palma da mão nem sola do pé. A tattoo some junto com a pele que descasca muito.
Lenda: Ter número impar de tatuagens porque par dá azar é lenda. Você decide o número de tatuagens e isso não decide a sua sorte. |