União Europeia confia seu comando a dois ilustres desconhecidos
Dois ilustres desconhecidos ocuparão os novos cargos de comando criados para dar coerência e peso mundial à União Europeia (UE). Os governantes dos 27 países-membros do bloco decidiram ontem, por unanimidade, escolher o belga Herman Van Rompuy como primeiro presidente estável do Conselho Europeu, a mais alta instituição da UE. Os 27 escolheram, também sem divergências, a britânica Catherine Ashton como sucessora de Javier Solana no novo e reforçado posto de Alta representante europeia para política externa e segurança.
Nenhum dos dois rostos é conhecido fora dos corredores de Bruxelas, mas a dupla personifica o impossível consenso buscado pelos países da UE. De um lado, um democrata-cristão de um país pequeno; de outro, uma trabalhista de uma nação grande e cética em relação ao bloco.
Atual primeiro-ministro da Bélgica, Van Rompuy se tornará no próximo dia 1º, por dois anos e meio, o primeiro presidente estável do Conselho Europeu, a instituição que reúne os chefes de Estado ou Governo da UE. Após quase oito anos de negociações, tratados fracassados e referendos perdidos, os europeus vão estrear, finalmente, uma nova arquitetura institucional com a qual pretendem melhorar a tomada de decisões e aumentar sua influência nos assuntos mundiais.O presidente do Conselho Europeu preparará os trabalhos dos governantes da UE, dirigirá seus debates e os representará perante os líderes de outras potências.
Não será o "presidente da Europa", porque a UE "não é um Estado e nem quer ser", destacou o presidente da Comissão Europeia (órgão executivo do bloco), José Manuel Durão Barroso, mas ajudará a dar coerência, continuidade e visibilidade às decisões coletivas da organização.
- Todos e cada um dos países devem sair vitoriosos das negociações. Uma negociação na qual uma parte termina derrotada nunca é uma boa negociação - disse.
Os governantes também elegeram ontem, de forma surpreendentemente rápida, sua representante de assuntos exteriores: uma baronesa britânica, socialista, que ocupava a pasta de Comércio na Comissão Europeia. Catherine Ashton teve que se defender das primeiras alfinetadas dos veículos de imprensa do Reino Unido, que a perguntaram durante entrevista coletiva se não se sentia escolhida apenas pelo fato de ser mulher.
- No passado, grande parte dos homens conseguiram seus cargos sobre as mulheres justamente por serem homens - rebateu - Julguem-me pelas minhas ações e ficarão satisfeitos - acrescentou.
A baronesa Ashton terá novas e amplas competências em relação a seu antecessor, o espanhol Javier Solana: será vice-presidente da Comissão Europeia e, ao mesmo tempo, presidirá as reuniões dos 27 ministros de Assuntos Exteriores da UE. No futuro, ela coordenará todas as políticas externas do bloco e dirigirá o novo e imponente serviço diplomático europeu. Mesmo depois de sua designação ontem pelos governantes comunitários, Ashton ainda terá que obter a aprovação do Parlamento Europeu.
Durão Barroso, que também tinha que aprovar a designação do Alto representante, expressou publicamente seu "entusiástico" apoio a Ashton. O português destacou as virtudes negociadoras de Ashton e também o fato de que seja do Reino Unido, já que, segundo ele, é muito importante que o país se sinta dentro da Europa. Barroso ainda lembrou, bem-humorado, que o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, que reclamava de não ter o número de telefone da Europa, agora teria para quem ligar. |