Zelaya não tem perspectivas de deixar a embaixada brasileira
Manuel Zelaya, presidente deposto de Honduras, é hoje um homem sem perspectivas, evasivo sobre seu futuro. Sequer consegue dizer quando pretende deixar a embaixada do Brasil em Tegucigalpa, onde está abrigado faz quase dois meses e meio.
No dia seguinte à decisão do Congresso hondurenho que rejeitou por 111 votos a 14 sua volta à presidência, Zelaya conversou na quinta-feira por telefone com Zero Hora e, durante os 20 minutos da entrevista, em nenhum momento falou em retornar ao poder. Conforme suas próprias palavras, a vida que leva na embaixada do Brasil é uma “luta cotidiana”, que segue ao sabor dos fatos.
Instado a dizer, afinal, o que fará neste momento em que tudo parece ter chegado ao fim, demonstrou um raro momento de nervosismo. E foi ríspido:
– Você quer que eu imagine uma situação hipotética. Nossa luta é diária, travada a cada cinco minutos. Só digo que continuo sendo o presidente eleito de Honduras. Essa decisão não me despojou do cargo. Chamo o povo para continuar na luta pela democracia.
Mas como poderia ocorrer um retorno ao poder, neste momento? A pergunta faz o presidente deposto de Honduras se calar por alguns instantes e responder, novamente, de forma evasiva:
– Estou aqui, na embaixada, lutando pela democracia. Fico aqui enquanto me deixarem.
Seu discurso parece ensaiado com o do governo brasileiro, que diz o mesmo: Zelaya pode ficar na representação diplomática até o momento que julgar necessário.
O problema é que, conforme ele próprio reconhece, as alternativas escasseiam:
– O que posso fazer? Estou cercado por militares e policiais.
E, nessa condição, Zelaya redigia, enquanto falava com a reportagem, uma carta que seria distribuída a todos os presidentes latino-americanos, pedindo apoio e acusando o governo americano de apoiar um golpe e uma ditadura militar. Nem mesmo as declarações do secretário de Estado adjunto dos Estados Unidos para a América Latina, Arturo Valenzuela, que expressou sua “decepção” com a decisão do Congresso hondurenho, o sensibilizaram.
– De que adianta dizer isso? As palavras não coincidem com os fatos. Os Estados Unidos estão apoiando um governo que foi eleito com a presença de 40% do eleitorado.
Zelaya conta que acompanhou pelo rádio a votação no Congresso. Definiu-a como “vergonha nacional” e “uma punhalada na democracia”. Em seguida, o ambiente na embaixada ficou “carregado”, conforme disse a ZH Francisco Catunda Resende, o único diplomata brasileiro que, dia sim dia não, tem ido ao prédio.
De acordo com Catunda, Zelaya vinha ensaiando o reconhecimento do presidente eleito no último domingo, Porfirio Lobo, caso ele e o Partido Nacional (ao qual é filiado) tivessem votado pelo seu retorno ao poder. O problema, segundo Catunda, é que Lobo fez declarações (inclusive a ZH) segundo as quais o presidente deposto já “faz parte da história”.
O diplomata brasileiro contou que a aposta do Itamaraty e do próprio Zelaya reside em uma reação da Organização dos Estados Americanos (OEA), que voltará a discutir hoje a crise em Honduras. A nação centro-americana foi suspensa da OEA após o golpe de junho, e sua eventual readmissão divide os países-membros.
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