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16.01.2010 imprimir Imprimir
 

Haiti já não consegue indentificar corpos

Estamos agora os jornalistas brasileiros na sala de imprensa montada na base militar brasileira de Porto Príncipe. Estado, Folha, Globo, Bandeirantes dividem as instalações daqui, lutando pela internet para tentar passar as notícias para vocês. Todos retornamo da rua, cada um com uma história diferente. Nenhum de nós passou por uma experiência parecida como essa na vida. E aqui tem gente que cobriu guerra e outros terremotos.

Hoje, seguramente, vi as cenas mais inesquecíveis que já presenciei ou que qualquer pessoa tenha me relatado. Os corpos têm tão pouca valia que são queimados ou jogados em valas comuns. Eles nunca serão identificados. Vi vários carbonizados na área da cozinha do inferno, como era conhecida a parte decadente próxima ao porto, repleta de bares e restaurantes populares. E estes mortos eram pessoas como a gente, com história, com pais, com filhos, com amigos, com memórias. E esta região podia ser pobre, mas isso não significa não ter história nas suas farmácias e bares antigos. Tudo acabou. As mesas dos bares, a comida na calçada, os vendedores animados e a musicalidade do Haiti. Não existe perspectiva para imaginar a reconstrução de toda esta região. Pode demorar uma década. Eu vi Beirute, nos anos 1990, ainda destruída, e anos depois, reconstruída. Mas não dá para comparar a escala. Porto Príncipe é pior. Como escrevi ontem, é Gaza vezes dez.

Como esquecer de um bebê em uma cartolina, jogado como se não fosse nada. E nem há o que fazer. Não se pode tocar sem luvas, as moscas já consomem parte do corpo. A solução para os haitianos é o fogo mesmo. Aqueles esqueletos queimando, debaixo de sol, sob os escombros, com as pessoas desesperadas de fome eu como um extra-terrestre acompanhado das forças brasileiras e o repórter da Globo.

Aliás, os leitores costumam achar os jornalistas corajosos. Vocês não idéia do que são esses militares brasileiros. Heróis, de verdade. Minutos depois do terremoto, já se embrenhavam no escuro, em meio a escombros, em busca de sobreviventes. Não tinham máquina, mas trabalhavam com as mãos. Entram sob escombros, arriscando a própria vida. E seguem anônimos como muitas da vítimas. Mas eles não perdem a esperança de encontrar pessoas vivas. Mereciam medalhas, o verdadeiro Nobel da Paz. Soldados que não lutam em guerras, mas para salvar vidas.

Nós jornalistas, mesmo tomando banho e se enxugando com camiseta, repetindo roupa (viemos apenas com uma mochila, obviamente) e dividindo quarto com outros dez não temos do que reclamar. A base é o paraíso nesta cidade. E com arroz, feijão, carne e suco todos os dias.

 
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