A rapariga cibernética
Ela é mal falada por tudo e por todos. Desejada por todos os sexos e idade. Proporciona prazer, lazer e informação. Se presta a todo tipo de serviço. Usam-na e abusam dela a qualquer hora, em todos os lugares e momentos. É a companheira de tarados virtuais e solitárias cibernéticas. Está sempre à disposição, seja qual for o desejo e a vontade incontida: de prazer, saber ou conhecimento didático e cultural.
Mesmo assim muitos nutrem por ela um misto de amor e ódio. Uns a tratam com desconfiança. Outros a idolatram. Marginais e criminosos de todas as espécies a utilizam para os mais variados e horrendos delitos. Idealogistas propagam através de suas ondas seus sonhos e gritos de liberdade. Como um advogado ela luta por causas absurdas. Outras nem tanto, mas através dela dela o grito de liberdade se espalha pela rede nos quatro cantos do planeta em diferentes e confusos idiomas.
Serve a todos indistintamente: dos casebres e palafitas às nobres mansões do Morumbi. Da Barra da Tijuca no Brasil à Park Avenue em New York, os Champs-Elysées na Cidade Luz, a Paris de todos os encantos. Presta serviço para todos os regimes: democracia, ditaduras e monarquias, para os da direita, os da esquerda, os do centro e anarquistas de plantão. É usada por todas as religiões: católicos, evangélicos, ortodoxos, judeus, xiitas, muçulmanos, hereges, ateus e fariseus.
O destino do mundo é discutido através dela. Os pregões, as cotações, executivos de Wall Street, a Avenida Paulista, de Hong Kong à Tóquio estão todos à sua mercê. Aviões não decolam, nem aterrisam sem antes ela ser consultada ou usada de alguma forma. Transatlânticos que antes singravam os mares usando apenas um astrólabio, hoje dependem desta jovem para navegar nos mares do mundo.
Nossos pais jamais imaginaram que um dia o mundo teria um ser deste nível, no qual boa parte do planeta gira ao seu redor, como faz a terra ao redor do sol em busca da luz para vida no planeta. Se tornou tão essencial quanto o ar que respiramos, a água que sacia a nossa sêde e o alimento que mata a nossa fome.
O mundo é dependente dessa jovem. A humanidade está submissa a ela. Não importa de que forma a usem: com fio, sem fio, via rádio e agora até pela corrente elétrica. Tem salvado vidas. Libertado e prendido bandidos. Está sempre vigilante. A serviço do mal e do bem é usada como a mão do carrasco e a mão amiga que afaga e dá carinho.
Com a evolução ela vai conosco a todos os cantos: da intimidade de um sanitário à estrepolia de uma alcova. Em muitas situações é participante ativa dos delírios e fantasias sexuais de casais apaixonados e sedentos de volúpia e prazer. Companheira dos notívagos que vagam em suas ondas como pirilampos numa floresta tecnológica. Poetas, boemios, seresteiros, cantores do dia e da noite, homens e mulheres, jovens e crianças, todos por conta das ondas virtuais. Todos em busca do saber. Cada a qual a seu jeito e a seu modo navegam como surfistas nas ondas da internet. Nossa cobiçada e desejada mal falada rapariga cibernética. |