As águas do Rio Grande
Também conhecido como “El Rio Bravo do Norte” é sob e através destas águas que bravos do Sul da América tentam chegar ao Grande Irmão imperialista do norte na busca do sonho americano. E tudo começa numa madrugada em cidades e vales da terra Brasil. Não importa se do Vale do Rio Doce, Jequitinhonha, até mesmo do aço, homens e mulheres de ferro com um sonho na mente e passaporte na mão, deixam para trás o bairro, os amigos da vila, o papo da esquina, a sinuca no fim da tarde. Aquela que matou o guarda e que passarinho não bebe e saem lentamente de suas casas, corações partidos, olhares marejados e um desejo de cruzar o Rio Bravo na busca dos dólares da liberdade e da carta de alforria material. Cada qual com seu sonho. Cada qual com o seu desejo: o carro, a casa, a escola dos filhos, o tratamento do pai ou da mãe e para trás ficam os ente queridos.
A mãe com um nó na garganta. O filho que fica dormindo. A esposa ou o marido com lágrimas nos olhos e um triste acenar na madrugada quente ao pé do Ibituruna e de outras cidades dos vales de todas as Gerais. Lá vai o sonhador, levando no peito a dor da saudade, o desejo de vencer, voltar para casa com a meta realizada. Uma cena que se repete em várias partes do Brasil: do estado de Minas com seus vales e montanhas ao Planalto Central nas terras do cerrado. Goianos deixam para trás o pequi que tanto amam, as modas sertanejas que retratam histórias de amor e causos do povo da terra de Cora Coralina.
Lá do sul, na terra das araucárias, o povo galego de cabelos da cor do milho deixam a terra roxa em busca “del camino para el rio grande”, o tererê gelado no fim da tarde, a roda de chimarrão nas plagas e campinas do sul. Da boiada que passa ao longe, espetáculo raro nos dias de hoje. Xirus, gaudérios e chinocas, guascas em busca de um sonho. Um sonho de liberdade, embalados pelo minuano, ao som de uma gaita faceira de um gaiteiro solitário sob a névoa fina que cai na noite fria das terras do sul. Para trás ficam o Guaíba de glórias e tradições e na campina da fronteira o silvo de um aragano que o índio véio de fronteira já sentiu por muitos anos.
E assim o povo segue em busca das margens do Rio Grande. Saem do pantanal, da terra do maracatu, das congadas e do tambaqui. Da terra onde a força da grana destrói coisas belas. Dos rios de todos nós, seja Grande, de Janeiro ou do Sul. A bússola do destino aponta o norte a seguir, mesmo que os ventos não movam moinhos, mas o sangue latino guerreiro brasileiro segue na busca do sonho e da alforria, na certeza de que um dia eu voltarei e sob as águas do Rio Grande, como um bravo eu o cruzarei, na ida e na volta nas asas duras de um avião todos nós voltaremos. Não importa a grandeza e a bravura de suas águas, voltarei para o meu remanso do caudaloso e manso Rio Doce que me viu nascer e crescer. Para as montanhas e vales das minhas Gerais, terra de onde ó meu Deus... não deveria ter saído jamais, mas como um bravo do sul cruzamos o bravo do norte, arriscando a vida e a sorte, desafiando o destino e a morte. |