Brasileiro, profissão imigrante
Já se foi o tempo em que nós, brasileiros, víamos chegar ou ouvíamos as histórias das hordas de emigrantes de várias partes do mundo, que desde os tempos de Cabral, aportaram em nossos portos vindos de todas as partes do planeta em busca da liberdade e terras. Cada qual com sua razão. Cada um com seus motivos. Os portugueses em busca de riquezas, especiarias e otras cositas mas.
Nos primórdios do Século Vinte, italianos chegaram aos cafezais de São Paulo para substituir a mão de obra negra e grátis dos escravos alforriados. O tempo passou. Chegaram os alemães, os poloneses e outros mais. E assim eles foram chegando. Os libaneses que insistimos em chamar de turcos, mas isso já e outra parte da história, tem a ver com o Império Turco Otomano.
Em 1908 os japoneses chegaram à bordo do Kasato Maru, um ex-navio hospital de guerra japonesa-russa, que após a transformação foi usado para transportar as primeiras levas de japoneses, que chegaram a o Porto de Santos, no litoral paulista logo no início do século. Assim eles foram chegando dos mais variados quadrantes da terra. O Brasil era o Eldorado Tropical, a terra do “em se plantando tudo dá”, segundo o Pero, aquele que Vaz e Caminha da frota de Cabral da carta pro rei, ora pois.
Anos se passaram. Veio o pós guerra e mais gente foi se achegando à terra do samba, do carnaval e das mulatas de requebros febris. Muitos de nós que hoje andamos mundo afora, nem sequer éramos nascidos. Depois dos anos dourados, vieram os de chumbo, do iê-iê-iê, da jovem guarda e do ame ou deixe-o e muitos de nós o deixamos. Uns no rabo de um foguete, cutucado por baionetas insanas, de soldados armados ou não, seguimos cantando e até hoje não sabemos boa parte da lição, de morrer pela pátria ou viver sem razão.
Chegou a abertura e com ela a anistia, a inflação e a carestia, República Nova, armações mil e na década perdida debandamos do Brasil, como uma legião urbana, barões vermelhos, cheios de ira e com muito ultraje sem rigor nos autoexilamos, pegamos nas malas e pernas pra que te quero. Hoje vagamos como judeus, num deserto globalizado em busca de um canto onde possamos viver, crescer e morrer sossegados. Somos filhos das Gerais, do Planalto Central, dos Pampas gauchescos, das palafitas e praias, da terra de Piratininga, do Rio do Redentor, do frevo, do boi e do maracatu. Somos um povo guerreiro e trabalhador. Sonhadores, alegres e solidários. Somos filhos de serras, montes e vales.
Pois é amigos, estamos nos quatro cantos do planeta, realizando e sonhando à espera de dias melhores. Vagando no imenso planeta azul, atrás dos verdes, dos dólares, dos euros, ienes, por terras distantes. Uns jogando bola, outros limpando, cantando, construindo com um olhar no horizonte e uma certeza constante: quero voltar pra terra que me viu nascer. Quero ver de novo o nascer do sol por trás daquelas serras. Quero ser menino novamente. Quero viver contente. Deixar de ser sobrevivente, num quadrante qualquer do planeta. |