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31.03.2010 imprimir Imprimir
 

Armando Nogueira, o mestre de todos nós...

Nordestino recém chegado à terra da garoa e ao sul maravilha das promessas de bonanças e coisas boas, o menino José, filho de Carmelita, viu e sentiu na pele e nos olhos os efeitos das bombas de gás lacrimogênio jogadas pelos policiais contra os estudantes, que protestavam nos anos de chumbo de milicos no poder, coturnos e baionetas caladas.

AI 5, censura, ditadura, carnaval e futebol, tudo isso se misturava na cabeça do negrinho que acabara de chegar do nordeste às terras de São Paulo, na busca de uma vida melhor. Era muito pequeno para fazer parte da ditadura ou tornar-se uma das vítimas dos desmandos dos estrelados coturnos e suas arbitrariedades, mas eis que nem tudo era treva, bombas, censuras e desmandos de caudilhos sonhadores na criação de uma república de soldados armados ou não, de morrer pela Pátria e viver sem razão.

Caminhando pelas ruas da pequena e acolhedora Guarulhos naquele dia 31 de maio de 1970, dia em que comemorava 13 anos de nascimento,descobri a existência do grande  jornalista Orlando Nogueira,o grande mestre inspirador e conhecedor dos bastidores do futebol Penta Campeão. Suas crônicas, seus comentários, suas grandes sacadas e frases sobre o futebol brasileiro e do mundo.

Desde o Mundial do México em 1970, com a narração de Geraldo José de Almeida, que venho acompanhando a vida deste brasileiro botafoguense que um dia descobri e me fez tomar gosto pela carreira jornalística. Sua maneira despojada de dizer as coisas, seu jeito de paizão de contar um fato, seus textos e seus gestos.

Armando Nogueira, muito obrigado por sua existência neste período a que chamamos de vida. Você deu luz e alegria aos feitos dos nossos craques, as coisas do futebol que você conhecia como ninguém. Suas crônicas repletas de emoção davam vida às letras. Os adjetivos, verdadeiras tenazes carregadas de emoção, amor e sabedoria.

Fosse nas conquistas como em 70 ou nas derrotas ao longo de 24 anos sem vitórias em Copas do Mundo, ecoam em meu nossos ouvidos suas palavras sobre o terceiro lugar invicto na Argentina sob a ditadura militar em 78. Não dá para esquecer as estrepulias de Paolo Rossi naquela fatídica segunda-feira, 7 de julho de 1982, no Estádio Sarria na Espanha, onde por três vezes estivemos na final do mundial e saimos com lágrimas nos olhos ao perdemos por 3x2 para a Itália del bambino di oro.

México 86 e lá se foram nossas esperanças perdidas no pé do Galinho de Quintino.

Outra vez a derrota na Itália em 90 no time da geração Dunga, mas em todas as situações lá estava você com um texto ou uma palavra que nos reerguia como uma fênix do futebol na luta pela vitória e a pátria de chuteiras via nas suas crônicas a luz no fim do tunel e a certeza de que dias melhores viriam.

E eles chegaram aos EUA, (Califórnia em 1994), podíamos gritar a pleno pulmões: “Somos tetras Armando”. E você vibrou e de novo na hora da alegria estava com o nosso povo brasileiro, mas quis o destino que na Cidade Luz na última Copa do Século, 1998, na Paris da Torre Eiffel, do Louvre e dos croissants, que mais uma vez chorássemos pela derrota. Você e suas crônicas mais uma vez se fizeram presentes, acalentando a ferida na alma do torcedor brasileiro.

Ásia 2002, você se fez presente e junto conosco vibramos com a Família Escolari e o Penta, éramos de novo Campeões Mundiais. Nós brasileiros saímos na frente: 5 Copas do Mundo,em 2006 na fria Alemanha outra derrota e você presente, nas crônicas e na TV...e agora Armando? Como faremos sem você, seu carisma, seu jeito brejeiro cosmopolita de ser? Iremos à África do Sul e você foi chamado para o céu. Obrigado mestre em nome de todos os brasileiros. Obrigado por você ter existido. Você foi o cronista de todos nós. Pai nosso, cuida dele por todos nós. Nas mesas redondas do céu... cuida do garoto de Xapuri ,o grande poeta e criador de coisas boas na TV brasileira. Até breve grande e respeitado mestre!
 
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