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14.07.2010 imprimir Imprimir
 

Bater em negro não é falta…

Essa era a regra no recém-nascido futebol brasileiro no início do século 20. Com pouco menos de 20 anos de existência, num parto realizado pelo inglês Charles Muller, nasceu na terra brasilis o esporte bretão, ou seja, filho da Bretanha, região onde se localiza a Inglaterra e seus vizinhos. O inglês que voltou da Inglaterra com uma bola de couro, que depois foi batizada de capotão, levou para nosso país as regras de um esporte que passaria a ser a alma e a essência do nosso povo séculos e muitas copas depois. Num total de vinte, cinco foram vencidas por nós, ou seja, 25% deste bolo pertence ao Brasil: 58, 62, 70, 94 e 2002, o resto é despeito de argentino rs rs rs...

Mas voltando ao início do futebol em nossa terra natal, quem mais sofreu e ao mesmo tempo deu mais alegria à patria de chuteiras, com todo respeito pelos demais, foram os jogadores negros. Conta a lenda que foram eles os inventores do drible com seus gingados e requebros, uma forma inventada para fugir do racismo, da violência e da pancadaria das quais eram vítimas nas partidas de futebol no início do século 20 lá pelos anos de 19 e nossos avós, pois em jogo de brancos contra negros, os primeiros podiam bater à vontade, porque a regra era “bater em negro não é falta” e o juiz não dava mesmo e a negrada levava o sarrafo sem dó nem piedade, ai minha canela...Negros e pobres não podiam praticar futebol sem virar vítimas dos algozes brancos que compunham a elite da época num país onde 20% era alfabetizada e os demais um bando de negros mulatos, pobres de todas as cores unidos pelo analfabetismo e a exclusão social que perdura nos dias de hoje, início do século 21, passados mais de 100 anos.

Porém como não tem bem que dure para sempre e mal que nunca termine, eis que um negro de nome Francisco Carregal começou a jogar, na então Fábrica de Tecidos Bangu, num time formado pelo escocês o Sr. Thomas Donohoe e daí em diante a coisa foi mudando e ficou melhor quando surgiu o filho da lavadeira negra com o comerciante alemão, o negro Artur Friedenreich, mas que muitos preferiam ver como um branco bronzeado. Segundo os historiadores, o mesmo tinha que passar chapinha no cabelo e usar pó de arroz para esbranquiçar a pele e vestir a camisa do tricolor das laranjeiras, daí o apelido “Pó de Arroz” que perdura até os nossos dias.

Muitos surgiram depois como o craque Leonidas da Silva que virou até nome de “Chocolate, o diamante negro”, mas foi em 1923 que foi assinada a Lei Áurea no futebol brasileiro graças a um time carioca fundado por portugueses com nome de navegador famoso e descobridor do caminho das Índias, Deus salve, Vasco da Gama, o time da Cruz de Malta e O Bangu Atletico Clube com sua democracia racial entraram para a nossa História do Brasil e do futebol como os primeiros clubes a escalar negros, bendita ousadia de mais de 100 anos e graças a isso surgiram craques como Francisco Carregal , Manoel Maia, Leonidas da Silva, o Rei Pelé e muitos outros e saber que houve um tempo em que negro não era escalado para a Seleção Brasileira num verdadeiro apartheid caboclo. Vencemos alguns jogos, mas no da vida, o placar ainda é adverso e em alguns cantos a regra permanece silenciosa, acobertada pela hipocrisia da grana que segundo Caetano “destroi coisas belas” e muitos ainda acham que bater em negro não é falta. Cordial sampraço e até a próxima semana.


 
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