Gilberto Gil deixa o governo; Juca Ferreira é o novo ministro
Brasília - Sem esconder o alívio, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, anunciou na noite de quarta-feira (30) a saída do cargo. Após encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto, ele confidenciou que se sentia sufocado como artista e reclamou que os recursos da pasta não chegam a 1% do Orçamento da União, como recomenda a Unesco. "No governo a gente sufoca um pouco a inspiração, não tem tempo para ela", disse à Agência Estado.
Foi a terceira vez que ele pediu ao presidente para deixar a pasta. Gil relatou em entrevista coletiva que, no encontro de quarta-feira, Lula estava mais sensível e avaliou que não teria problemas políticos com a saída do cantor do cargo. O presidente, antes de se despedir e desejar boa sorte ao artista fez um longo relato sobre agricultura familiar e biocombustíveis, segundo o próprio ministro. Por isso, Gil disse que "Refazenda" era a música mais apropriada para o momento de saída do governo. "Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão", lembrou o trecho da música que fala de um abacateiro, metáfora da árvore da vida. "É uma música que fala das plagas do planalto central, se quiserem podem usar como jingle."
Quem deve assumir o Ministério da Cultura é o atual secretário-executivo da pasta, Juca Ferreira, que já está na interinidade da função. Ferreira poderá assumir em definitivo o cargo no próximo mês, após viagem de Lula à China.
Gilberto Gil fazia parte de um seleto grupo de apenas quatro ministros no mesmo cargo desde janeiro de 2003 - os demais são Celso Amorim (Relações Exteriores), Jorge Félix (Gabinete de Segurança) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral). Uma temporada recente de shows na Europa e nos Estados Unidos levou Gil a voltar a pedir a Lula o afastamento. "Eu disse ao presidente que o jogo estava de dois a zero para ele", contou. "Hoje fiz um gol e saí ganhando."
Na entrevista, Gil disse que não saía do governo para atender ao aumento da demanda de shows, mas para dar mais atenção à família. Ele, no entanto, admitiu "pressões" da agenda de artista. O ministro lembrou ter sido criticado por acumular a função de ministro com a de músico. Neste ano, ele tirou férias de 30 dias e conseguiu licença de 40 dias para fazer apresentações. "Não me incomodava muito as críticas, pois não me sentia responsável por atitudes negativas", afirmou. "Houve sinergia entre o trabalho do artista e do ministro."
Ele calculou ter dedicado 80% do tempo para os trabalhos de ministro e 20% para a música. "A balança tendia a pender mais para a atividade artística, e aí resolvi sair", disse. "O presidente entendeu isso e me liberou", completou. Gil disse ter tomado novamente a decisão de deixar o governo no último dia 27. Agora, o artista pretende se dedicar ao mais novo disco "Banda Larga".