Senadora nega ter recebido R$ 2 milhões para favorecer Eike e OAS
Brasília - A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) negou na quinta-feira (17) a acusação de que teria recebido propina de R$ 2 milhões da empreiteira OAS para aprovar emenda que alterava o modelo de concessão de terminais portuários privados, conforme trechos de escuta telefônica feita pela Polícia Federal. "Sempre tive compromisso com segmentos econômicos e defendo logística dos setores de transporte e portos para não inviabilizar o agronegócio", afirmou, ressaltando que, durante a discussão da Medida Provisória 412, o DEM fechou questão em favor da exploração dos portos pela iniciativa privada.
Kátia Abreu ressaltou que essa é uma posição ideológica de seu partido, que sempre defendeu a economia de mercado. "Sempre lutei contra os cartéis", disse, para acrescentar que, se a emenda fosse aprovada, o "cartel de Dantas", que explora 46% dos contêineres do Porto de Santos com a empresa Santos Brasil, seria prejudicado. Do outro lado, beneficiaria outros empresários que desejam investir no setor portuário, que ela considera fundamental para o agronegócio.
O suposto envolvimento de Kátia Abreu em favor da OAS e do empresário Eike Batista, interessados na flexibilização das regras portuárias, consta no relatório da PF sobre a Operação Satiagraha. Na conversa grampeada, revelada na quinta-feira pela Folha de S. Paulo, Arthur Joaquim de Carvalho, que trabalha no grupo de Daniel Dantas, comenta com Guilherme Sodré Martins, também ligado ao banqueiro, que a senadora teria recebido dinheiro e atraído para o seu lado o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), amigo pessoal de Carlos Rodemburg, vice-presidente do Opportunity.
Kátia Abreu qualificou Arthur e Guilherme de "gângsteres" e "bandidos", afirmando que ambos sabiam da gravação. "Não posso admitir que um chefe de uma quadrilha (Dantas) tente intimidar senadores", afirmou.
Além de se defender publicamente das acusações, a senadora entrou com duas ações judiciais. Na ação de interpelação judicial criminal, pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) que notifique Arthur Carvalho e Guilherme Sodré para que esclareçam quem realmente estava recebendo propina.
A outra ação de indenização por danos morais, feita à Justiça Federal, é contra a União, especificamente o Ministério da Justiça. A senadora acusa a PF, subordinada ao ministério, de não ter cuidado de documento sigiloso que estava sob sua guarda e responsabilidade.
Revoltada e visivelmente abalada, Kátia Abreu deu entrevista ao lado do presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). Ela interpretou o episódio como uma "vingança" à posição em favor do fim da CPMF e com o objetivo de desestabilizar sua candidatura à presidência da Confederação Nacional de Agricultura (CNA).
Como relatora da MP do reporto, Kátia Abreu disse que fez reuniões com Eike Batista, interessado na flexibilização dos portos para explorar o setor, bem como com diretores da OAS. Na outra ponta, teve encontros no Congresso com dirigentes da Santos Brasil, como Wady Jasmin e Sergio Salomão, que defendiam os interesses de Dantas. Ela explicou que o grupo não apresentou argumentos convincentes.
Como a MP estava expirando seu prazo, o líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR), fez um compromisso público para dizer que o governo baixaria um decreto para permitir a construção de portos privados sem limite de cargas, quando hoje a permissão só é dada para quem tem carga própria e acima de determinado teto.
"Por que a PF não investiga os motivos pelos quais até hoje a resolução da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) não foi alterada para honrar esse acordo?", questionou Kátia. |