Cacciola chega ao Brasil e diz acreditar na Justiça
Rio - "Errei." A declaração é do ex-banqueiro Salvatore Cacciola, que chegou preso na quinta-feira (17) de madrugada, sem algemas, à sede da Superintendência Regional da Polícia Federal (PF) no Rio. Sorridente, em rápida coletiva à imprensa, ele afirmou que nunca foi um foragido. A entrevista foi interrompida pelo superintendente da PF, Valdinho Jacinto Caetano, logo após a segunda pergunta. Ao ser retirado da sala, em meio a um empurra-empurra de jornalistas, Cacciola respondeu a outras duas perguntas, antes de ser levado para o presídio Ary Franco, no início da manhã.
- Foi uma falha ir para Mônaco, você acha que errou indo para lá? indagou um repórter.
"Errei"
- Você não teria ido (se fosse) hoje?
"Não"
Cacciola desembarcou no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio, de madrugada, por volta das 4h30, mas deixou o local sem qualquer contato com a imprensa. Seu advogado, Carlos Ely Eluf, caminhando apressado pelo saguão do aeroporto, declarava que a prisão teve "conotação política". "Estamos em ano de eleição e a prisão teve como objetivo fazer campanha contra o ex-presidente Fernando Henrique", afirmou.
Mais tarde, na sede da PF, Cacciola preferiu baixar o tom. "Eu não sei se ela (a prisão) tem conotação política. Não dou opinião em relação a isso, estou à disposição da Justiça e a Justiça vai decidir o que ela achar que deve decidir. A única coisa que posso lembrar é que na sentença das 10 pessoas, todos podem fazer apelação em liberdade, menos o Cacciola, porque era um foragido"reclamou.
Lembrando a forma como deixou o Brasil, em 2000, ele bateu na tecla de que não pode ser considerado foragido da Justiça, um dos argumentos de seus advogados para um pedido de habeas-corpus "Eu nunca fui um foragido. Eu fui para a Itália com o meu passaporte carimbado, entrei na Itália e saí do Brasil oficialmente, e quando saí, eu saí livre, com a decisão do ministro Marco Aurélio de Mello. Somente depois que cheguei na Itália, no dia 17 de julho, e por sinal hoje é dia 17 de julho, no dia 19, o ministro Veloso anulou a decisão do ministro Marco Aurélio e eu aí resolvi não voltar mais, entende, ficar lá."
Depois da curta entrevista ("Acabou?", perguntou ao delegado, quando ele deu por encerrada a sessão de perguntas), Cacciola, que em Mônaco cumpriu pena numa prisão que se assemelhava a um castelo, foi levado para o Presídio Ary Franco, em Água Santa, subúrbio do Rio, o mesmo que abrigou o cantor de pagode Belo.
Os advogados tentaram conseguir a transferência para outra unidade, mais moderna, mas até o início da noite a Secretaria de Administração Penitenciária não havia autorizado a transferência, à espera de um pedido formal. O ex-banqueiro teria de passar a noite no Água Santa, penitenciária construída há 34 anos.
Antes de seguir para seu destino, o ex-banqueiro se mostrou solícito e simpático, alegando confiar na Justiça. E aproveitou a curta entrevista para lembrar que outros réus no processo do Caso Marka, entre eles antigos diretores do Banco Central. "Estou voltando preso, mas é bom lembrar que as pessoas que foram condenadas junto comigo nesse processo estão trabalhando, livres, ganham o seu dinheiro. Eu não estava fazendo nada diferente do que eles estão fazendo aqui (no Brasil). Só que eu estava fazendo na Itália e respondendo a todos os processos por rogatória, com os meus advogados, seja italianos como brasileiros, atuando em todos os processos. Então estava sempre à disposição da Justiça; a diferença é que eu estava na Itália, mais nada."