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02.08.2008 imprimir Imprimir
 

Lula enfrentará ressentimento contra 'invasão brasileira'

Buenos Aires - A visita de dois dias que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará a Buenos Aires a partir de domingo (03) tem três aspectos fundamentais: reverter os ressentimentos na opinião pública argentina causados pelos investimentos brasileiros - a criticada "invasão brasileira" -, aparar as arestas que surgiram na Rodada Doha da Organização Mundial de Comércio (OMC); e, por último, gerar um fato político importante com conotação econômica que ajude a presidente Cristina Kirchner em um momento de extrema fragilidade de seu poder.

A análise é do economista Maurício Claverí, da consultoria Abeceb.com. "O déficit comercial da Argentina com o Brasil continua crescendo e os capitais brasileiros seguem avançando no país e isso gera na opinião pública um ressentimento contra o principal sócio no Mercosul", afirma Claverí. Lula desembarca no domingo à tarde para receber Cristina na residência do embaixador Mauro Vieira, à noite, para um jantar. No dia seguinte, ambos participam, junto com empresários brasileiros e argentinos, de um seminário sobre o comércio bilateral.

O economista avalia que será uma excelente oportunidade para "reverter essa corrente de opinião que existe contra o Brasil". Em entrevista exclusiva à Agência Estado, o presidente da União Industrial da Argentina, Juan Carlos Lascurain, disse que técnicos da instituição argentina e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) trabalham para estabelecer uma integração mais profunda que possa minimizar as assimetrias. "Estamos discutindo como nos integrar positivamente de maneira inteligente, inclusive olhando terceiros mercados", afirmou.

O empresário compara as políticas industriais implementadas em ambos os países e reconhece que a Argentina possui uma grande desvantagem. "Nós temos uma determinada política que leva quatro ou cinco anos, enquanto o Brasil vem tendo uma há anos e, de fato, tem um banco de desenvolvimento (o BNDES) para fomentar a internacionalização de suas empresas", afirma.

RESSENTIMENTO - O tom moderado de Lascurain não revela o ressentimento apontado por Claverí. Porém, nos bastidores da UIA, outras vozes isoladas opinam que, na realidade, a integração proposta pelo Brasil é daninha para a Argentina. "A atitude brasileira é agressiva: os empresários só querem comprar nossas empresas e isso não é uma inserção de desenvolvimento para a Argentina no processo de integração", disse uma fonte da entidade. Mas Lula chega também com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) disposto a financiar projetos de investimentos no país, ponderou à AE, não sem criticar: "O financiamento não é real para nossas empresas, mas para a participação das empresas brasileiras."

O próprio secretário de Indústria, Fernando Fraguío, em entrevista exclusiva à AE, recentemente, reconheceu que não só o déficit comercial anual de US$ 4 bilhões "não é sustentável entre dois sócios" como também considerava que os investimentos brasileiros "têm que ser trabalhados para que o comércio cresça da Argentina para o Brasil também".

ÚNICO INVESTIDOR - O analista Claverí concorda que "o grosso dos investimentos tem sido em aquisições locais", o que marca o ressentimento do empresariado, consciente de que o país recebe pouco investimento estrangeiro para sustentar o ritmo de crescimento da economia. Ele destaca que a Argentina é o país da região que menos recebe investimento estrangeiro direto (IED). "Praticamente a única corrente de IED forte que a Argentina tem tido nos últimos anos é do Brasil. Por isso, é preciso ponderar essa análise crítica contra o empresariado brasileiro", ressalta

A visita de Lula também deverá ajudar a aparar as arestas que surgiram nas negociações em Genebra, quando Brasil e Argentina não conseguiram adotar uma posição em comum. No plano político, Cristina passa por um momento delicado, registrando baixa popularidade decorrente do longo conflito com o setor agropecuário. "Uma visita desta natureza, de um presidente-sócio de peso que empenhará todo seu apoio, sem dúvida, ajudará a presidente", diz Claverí.

 
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