Léa Campos: “Lutei muito pelo futebol feminino, mas também tenho contas a pagar!”

Léa Campos: “Lutei muito pelo futebol feminino, mas também tenho contas a pagar!”
14 maio 09:15 2015 Imprimir

lea_camposAos 27 anos, Juliana Cabral, referência do futebol feminino no Brasil (com dois Mundiais e duas Olimpíadas disputadas) antecipa em tom de frustração, que abandonará o futebol.

“Infelizmente estou decidindo parar de jogar.

Estou sem receber de alguns clubes até hoje. Porém quando no ano passado acertei com Corinthians, achei que finalmente seria respeitada no futebol feminino. Fiquei empolgada com o projeto do Corinthians.

Com a demissão fui pega de surpresa, fiquei chateada, arrasada, porque eu já passei por muita coisa! Já lutei muito por essa modalidade! Mas até que ponto?

Também tenho a minha vida! Também tenho contas para pagar! Depois disso senti-me completamente desrespeitada.”

Este foi o desabafo de Juliana numa entrevista.

Segundo ela o Corinthians só informou que adiaria os treinos e reduziria salários, mas após as eleições no clube “quando nos apresentamos em 1º de março todas as quinze jogadoras, encontramos uma comissão técnica nova que escolheu só duas meninas para ficarem, quer dizer, o clube manteve o grupo o ano inteiro, em janeiro e fevereiro pediram para aguardarmos e quando nos apresentamos ficamos desempregadas” .

Juliana tem uma grande bagagem, além dos times brasileiros e da Seleção brasileira, jogou na Suécia e nos Estados Unidos.

“Meu sonho não acabou no futebol feminino. Agora vou tentar do lado de fora aperfeiçoar meus estudos e continuar dando aula numa escolinha de futebol”. Juliana está fazendo o último ano de Educação Física e foi agraciada pela UNIP (Universidade Paulista) com uma bolsa de estudos.

Seus agradecimentos vão para o apoio incondicional de toda a sua família, especialmente de seu pai, que também foi jogador, admiradora do zagueiro os Gamarra em quem se espelha e sua colega Elaine.

Não é apenas a falta de estrutura que prejudica o futebol feminino no Brasil, segundo Juliana, o problema principal da atividade no Brasil vai além  disso:

“não devemos pensar em resultados imediatos de grana, temos que começar do zero mesmo. Faltam pessoas conhecedoras da modalidade para colocar uma estrutura correta, faltam times mais competitivos, não podemos ter jogos de 10-0. Acho que primeiramente, o futebol feminino deveria apresentar-se ao público nas preliminares dos campeonatos masculinos”.

Evidentemente todos ganhariam, tanto o futebol masculino como o feminino e sem investimento alto por parte dos clubes, já que o futebol feminino tem seu público próprio.

O preconceito no futebol feminino ainda é um tema para debate:

“Eu não estou fazendo um mal para a sociedade, pelo contrário, beneficio a cultura do esporte, minha mãe morreu muito cedo e minha disciplina, determinação, caráter, foi tudo conquistado através do esporte! Talvez a imagem que uma jogadora de futebol passa para a sociedade não seja legal. Quando eu comecei, nos estádios e nas quadras, eu via menina de bermudão, camisetão, cabelo raspado, meninas de mãos dadas, quer dizer, isso vai contra uma grande parte da sociedade e você não pode bater de frente com uma sociedade que não aceita. Como é que mães vão levar suas filhas pequenas num ambiente desse? Por exemplo: eu jogo futebol, sou mulher, mas futebol é para homem, então eu viro um homem, esse pensamento atrapalha o futebol feminino.

Às vezes a gente reclama demais que falta estrutura e apoio, mas que marca vai querer patrocinar a imagem de uma mulher que se comporta como homem?”

Temos que continuar lutando. No basquete não foi diferente, no início houve os que foram contra a mulher jogar basquete, as meninas venceram o preconceito.

A sociedade precisa ver o futebol feminino com outros olhos.

Quando iniciei minha corrida para me tornar árbitro, tive que lutar contra todos esses preconceitos, mas minha persistência foi premiada e os que criticavam acabaram me aplaudindo.

Informar é um privilégio, informar corretamente uma obrigação.

Léa Campos

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