Com assassinatos diários, Chicago vive experiências de zonas de guerra

Com assassinatos diários, Chicago vive experiências de zonas de guerra
29 setembro 17:14 2016 Imprimir

violencia

O correspondente da BBC Ian Pannell já conheceu muitos locais assolados pela violência. Ele cobriu guerras no Iraque, Afeganistão e Síria. Mas baseado atualmente em Washington, ele não teve que ir muito longe para fazer uma nova reportagem sobre conflitos: Pannell retratou o que está por trás das impressionantes taxas de violência de Chicago, que atingiram o seu patamar mais alto dos últimos 20 anos.

O jornal Chicago Tribune reportou que, no início de setembro, a cidade registrou seu 500º homicídio de 2016, mantendo uma tendência de alta nesse tipo de crime iniciada em 2014, atribuída à guerra entre gangues rivais, à proliferação de armas e à exclusão socioeconômica de parte da população.

Apesar de haver diferenças brutais entre zonas de guerra da Síria e as ruas de bairros como Englewood ou Austin, Pannell diz reconhecer algumas similaridades.

Leia o depoimento de Ian Pannell à BBC News:

A guerra vira um meio de vida

“As pessoas vivem sob ameaça ou convivem com elementos de perigo, e apesar de o grau ser completamente diferente, ele tem semelhanças para as populações civis nos dois ambientes.

Então, o que se vê é o seguinte: se você for para zonas de guerra em dias em que nada está acontecendo, tudo pode parecer muito normal.

O que sempre me impressiona – e você pode ver isso tanto em Chicago como na Síria – são as pessoas: elas estarão nas ruas, estarão fazendo compras, mas elas conhecem as regras. Quando a confusão começa, elas recuam imediatamente e todo mundo desaparece.

Alguém em Chicago me disse: ‘o carteiro sabe’. O carteiro não vai àquelas ruas quando há algo acontecendo. E acontece o mesmo em zonas de guerra – as pessoas se adaptam, mas isso tem consequências psicológicas.

As pessoas não desistem. Mas elas convivem com níveis de trauma, perigo e estresse que não são normais, e não é possível lidar com aquele nível de amaça e perigo de forma rotineira sem que aquilo te afete.”

O poder das armas

“Eu nunca vi tantas armas em mãos civis fora de uma zona de guerra tradicional como vi em partes de Chicago. Eu nunca vi uma prontidão para usar armas fora de uma zona de guerra tradicional como eu vi em áreas da cidade.

Em uma zona de guerra você espera que as pessoas estejam armadas, elas estão prontas para usá-las e há uma grande chance de que elas tenham que usá-las. Em Chicago há garotos que ganharam autoridade pelas armas, eles ganham um status que não teriam se não as possuíssem.

Impacto nas crianças

“A infância acaba cedo nos dois lugares. As pessoas que perpetram a violência não se importam com isso. Para eles, é um ‘dano colateral’.

Em Chicago, um desses danos colaterais é a menina Tacarra Morgan, que foi baleada no estômago enquanto brincava fora de casa. O mesmo acontece com as crianças que são hospitalizadas na Síria após serem atingidas por disparos ou estilhaços de bombas enquanto brincavam em suas ruas.

As crianças se tornam insensíveis à violência. Uma pessoa é baleada e elas continuam subindo e descendo a rua com suas bicicletas porque estão acostumadas a ver aquilo. O mesmo acontece nas zonas de guerra.

Com o tempo alguém coloca armas nas mãos delas e elas abraçam uma vida de violência. O limiar onde você estaria disposto a pegar uma arma e atirar em alguém é fortemente reduzido.” Violência em Chicago também é atribuída à proliferação de armas e à exclusão socioeconômica de parte da população.

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