Léa Campos: Querer é Poder

Léa Campos: Querer é Poder
16 agosto 10:28 2018 Imprimir

Muitas vezes somos discriminados pelo trabalho que fazemos, ainda que o resultado de nosso labor seja um benefício para todos.

Os lixeiros, os garis, as empregadas domésticas e outros trabalhos mais, muitas vezes levam as pessoas que os fazem serem humilhadas e tratadas com desdém. O respeito deve ser dado às pessoas sem levar em conta a profissão que exercem. Dependemos das empregadas domésticas, das babás, das faxineiras que realizam os afazeres em nossas casas, além de cuidar de nossos filhos, enquanto estamos trabalhando, para manter nossa casa e nossos filhos, muitas vezes sem ajuda de um esposo.

Temos que lembrar também dos que recolhem nosso lixo durante a semana, assim como dos garis que limpam nossas ruas e ganham um salário irrisório. Quando chega o Natal, alguns como reconhecimento, dão alguma coisa para os lixeiros como se fosse um grande favor. Os garis nem isso têm, pois estão nas ruas, mas não entregam o cartão de Natal no fim de ano, como fazem os lixeiros, pois não são fixos em determinadas ruas e bairros.

A vida nos mostra que a profissão nem sempre define a pessoa, conheço médicos que trabalham mais pelo dinheiro do que pelos pacientes, entretanto os respeitamos como se fossem verdadeiros deuses. Evidentemente, existem médicos que cumprem o juramento de Hipócrates ao pé da letra e colocam os pacientes acima de tudo. Vamos fazer um paralelo entre um médico e um gari: o médico impõe seu horário, o gari tem que cumprir o horário imposto. São 8 horas corridas sob sol forte, uma rotina na vida de muitos, em sua maioria sem estudo e que se acham sem condições de buscar no estudo uma forma de mudar o rumo de suas vidas. São as responsabilidades impostas pela própria vida que colocam esse tipo de viseira.

Mas em todas as profissões existem exceções. A baiana Vanderlucia varre as ruas do município de Luis Eduardo Magalhaes, distante quase mil km da capital Salvador.  Lucia, como é carinhosamente chamada, é casada e mãe de três filhos, resolveu trabalhar como gari para que o esposo não deixasse os estudos quando perdeu o trabalho.  Lucia aos 33 anos, incentivada pela dedicação do marido nos estudos, também voltou a estudar, concluindo o ensino médio em 2014, sem pensar que retomaria os livros novamente. Entretanto, Lucia mudou de ideia, participou do concurso do Enem e ganhou uma bolsa 100% para estudar Biomedicina numa faculdade particular.  Com o youtube baixava tudo relacionado ao que pretendia, numa caixinha de música e enquanto varria as ruas ia ouvindo as aulas. Lucia começa seu trabalho de gari às 7h00 da manhã e às 7h00 da noite vai para a universidade.  Apesar do desgaste, Lucia já está no segundo semestre, e com orgulho de seus 36 anos e um exemplo a seguir.

A caixinha de música continua sendo seu maior aliado, pois nela revisa as matérias dadas, enquanto vai cumprindo seu labor de varrer as ruas de sua cidade. Lucia é a primeira da família de 4 irmãos a cursar uma faculdade, enquanto os filhos já estão bem encaminhados: Diogo (20) é programador de sites, Daniel (18) ganhou uma bolsa 100% e cursa Engenharia Civil, numa faculdade particular, enquanto o caçula, Davi, (16) conseguiu uma bolsa e cursa o ensino médio numa escola particular. Como vimos, ser gari não diminui a inteligência de ninguém.  Hoje Lucia e o marido Jorge se sentem orgulhosos deles e dos filhos, no caso de Lucia ela não teve a chance de estudar, por isso tanta luta para dar aos filhos a oportunidade de terem uma profissão e consequentemente um futuro melhor. Como diz Lucia: “O estudo é valioso”.  Não podemos mudar o passado, mas podemos mudar o futuro.

Informar é um privilégio, informar corretamente uma obrigação.

Léa Campos

 

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