Ex-Ministro das Relações exteriores diz que ninguém mais quer ouvir o Brasil

Ex-Ministro das Relações exteriores diz que ninguém mais quer ouvir o Brasil
16 janeiro 20:18 2020 Imprimir

Celso Amorim conhece a política externa do Brasil como poucos. Diplomata desde a década de 60, foi ministro das Relações Exteriores nos governos de Itamar Franco (1993-1995) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011). Em entrevista ele fez um balanço crítico do primeiro ano da política externa de Jair Bolsonaro. “Nunca antes havíamos rejeitado os valores básicos do multilateralismo e das normas internacionais”, diz.

O ex-chanceler disse também que esta é a política externa mais desastrosa que já viu na história do Brasil. Que nunca antes havíamos rejeitado os valores básicos do multilateralismo e das normas internacionais nos mais variados campos. Também nunca viu um alinhamento automático, absoluto e declarado com os Estados Unidos como agora. Para ele não há benefício nenhum nessa política, pois até mesmo as pessoas mais conservadoras do Itamaraty estão horrorizadas, porque isso nunca foi feito. Acrescentou que os Estados Unidos não respeitam um país que não se respeita. E o que vemos hoje na relação entre o Brasil e os Estados Unidos são cenas de paternalismo e desprezo.

Afirma também que os princípios da não intervenção e da autodeterminação dos povos, listados na Constituição como princípios básicos, sempre foram fundamentais para nós. Esses são apenas dois dos aspectos mais graves desse rompimento. E que o problema não é a polêmica, e sim ser ofensivo com um chefe de Estado, onde não concorda com Emmanuel Macron [presidente da França] sobre o estatuto internacional da Amazônia. A soberania é nossa e ninguém discute isso, mas, com ela, vem a responsabilidade. E que nosso presidente teve uma atitude jamais vista nas relações internacionais. Nesse episódio, ele ultrapassou limites da civilidade.

As pessoas estão perplexas. O Brasil sempre foi considerado um país simpático. Só que hoje nós somos vistos como um problema. A Amazônia foi o caso mais gritante, mas o que fizemos em outras áreas, como as atitudes belicosas em relação à Venezuela, acabou por fazer do Brasil um país que cria problemas. Acredita que as pessoas acham que podem impor uma doutrina econômica e desconhecem o fato fundamental de que estamos lidando com seres humanos, não com números ou máquinas. E que a implementação de políticas chamadas de neoliberais chegou ao limite em muitos países, onde ninguém esperava a recente explosão popular no Chile. E finalizando acredita que esse sentimento chegará ao Brasil.

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