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Léa Campos: Sem Luta Não Há Vitória

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Quando na década de 60 me propus a ser árbitra de futebol não imaginava o caminho espinhoso que enfrentaria.

Os espinhos foram, principalmente, as próprias mulheres que não aceitavam que eu poderia desempenhar bem meu trabalho. A imprensa me acolheu com carinho e me ajudou em tudo para que minha caminhada fosse mais fácil.

Fiz o curso completo, atendi todas as exigências do mesmo, tanto na parte teórica como física, apitei muitos jogos de várzea e em muitas vezes corri perigo e recebi até ameaça de morte, dos que não aceitavam a derrota em campo.

Mas nada disso me impediu de continuar lutando.

A maior barreira foi do então presidente da CBD, hoje CBF, naquela época, Havelange, que depois de me impor vários contras, que eu facilmente passei, ele carimbou dizendo: “Enquanto eu presidir a CBD, não permitirei que mulher atue no futebol, nem jogando nem apitando ou auxiliando.

Tive que recorrer ao extremo, fui ao presidente Médice, e depois de expor o problema ele praticamente obrigou o mandatário do futebol a liberar meu diploma.

Passados 50 anos vejo que as mulheres continuam no mesmo lugar, não conseguem se impor, algumas desistem na metade do caminho outras que seguem em frente, não conseguem ser reconhecidas pela entidade maior, e pelas federações estaduais.

Em Minas, por exemplo, os machões de plantão não dão chance para que as meninas possam apitar, com muito favor, uma vez ou outra permite auxiliar o árbitro principal.

Recentemente o presidente da comissão de arbitragem da FMF (Federação Mineira de Futebol) disse que é provável que em 2020 haja pelo menos uma mulher apitando como árbitra principal no Modulo II que equivale a Segunda Divisão.

Minha inquietude me leva a fazer uma pergunta: se não tinham a intenção de incluir as mulheres no quadro profissional com chance de apitar, por que exigem delas o mesmo desempenho dos homens?

Uma forma de humilhar e forçar covardemente que as mesmas desistem.

É um absurdo tudo que acontece em torno das mulheres que buscam no futebol uma fonte de trabalho.

Temos ótimas árbitras, não somente em Minas como em todo o Brasil, e faço votos que essa mentalidade machista desapareça.

Se o homem pode ser manicure, por que a mulher não pode apitar futebol?

Muitas desistem por sentirem que não terão chance, abaixo a opinião de uma psicóloga que lida com o problema.

“As que continuam até chegar a um alto nível são realmente aquelas que têm muita personalidade, um perfil diferenciado, e mostram que têm condições de se manter nesse meio. Na parte técnica e mental, não há dúvida de que elas não ficam devendo para nenhum homem. Pelo contrário, costumam ser mentalmente mais fortes”, conclui a psicóloga Alessandra Monteiro.

Temos que continuar lutando pelo nosso objetivo: respeito por nossa conquista.

Se não queriam nos dar uma chance real por que não nos impediram de fazer o curso?

 

Informar é um privilégio, informar corretamente uma obrigação. 

Léa Campos


Social Press . 22/03/2018

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